Memórias e afetos nos websites de redes sociais

 

por Leonardo Goldberg | Psicólogo, Psicanalista. Mestre em História da Cultura (UPM). Doutorando do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP), pesquisa sobre as atitudes perante a morte nos websites de redes sociais, orientado pelo Prof. Wellington Zangari. É membro do NEPSIDI-USP (Núcleo de Estudos em Psicologia e Campo Digital) – leoaegoldberg@gmail.com

O sujeito ocupa as redes sociais através do olhar. O corpo, nessa manobra, serve apenas como prótese possível da direção escópica: um amontoado de carne para percorrer os caminhos das redes e digitar alguns naquinhos de ideias, fazendo eco assim à alguma ilha discursiva em evidência.

Profissionais mapeiam esse olhar e criam conteúdo a partir de um paradigma próprio que concebe uma sinonímia entre o olhar e o desejo. É o eyetracking do desenhista de redes, que pretende convocar nossa atenção de forma imperativa. Mais que o click, que já é ato, o que se disputa através de artimanhas discursivas, gadgets fantasmáticos e apelações imagéticas é a direção escópica do sujeito engajado nas estruturas topológicas de rede e das redes. Assim, desenhistas e engenheiros dos grandes conglomerados de websites de redes sociais, calculam a experiência dos usuários e formulam verdadeiras cartografias do desejo, que incluem categorias, matrizes discursivas, probabilidades de escolhas entre as possíveis. Qual a chance de tal olho, com base nos caminhos percorridos até agora e nas palavras digitadas, clicar aqui ou acolá? Entrar por essa ou por aquela porta? Ou então, e mais visível ultimamente, ser recrutado para sustentar algum dos palanquins de discurso que passam abruptamente na telinha? O equívoco do Vale do Silício é supor que entre o olho e o olhar não exista um profundo engano.

Mas quaisquer traços que remetam aos fantasmas dos usuários lhes exigem uma resposta. Da “ameaça comunista” ao marketing interativo, os websites de redes sociais são demasiadamente demandantes: pedem, solicitam, exigem que o sujeito reaja ou responda sob duas ameaças funcionais: a primeira, a de que este sujeito estaria perdendo um algo se assim não o fizer; a segunda, a de que se ele não, um outro­­ que lhe é muito ameaçador o fará e assim ficará com aquilo que pertence a ele. Tudo num instante: o tempo das redes sociais é impetuoso, irascível, enervado. A dialética que pendula entre medo e desejo é explorada de forma vigorosa – flutuamos entre a impressão de que o mundo terminará ontem ou de que vivemos num grande nightclub. Ver e se fazer ver, amar e se fazer amar, matar e se fazer matar, lacrar e se fazer lacrado: entre ativo e passivo o circuito pulsional demanda uma onipresença permanente.

Em outras palavras, esse circuito depende de um sujeito vigilante, que desprendido das imposições geográficas, se propõe ao exercício permanente de denegar a ausência – uma conversa de whatsapp ou messenger ideal passa à ser sem fecho, adeus ou até logo se tornam categorias morais com conotação bem negativa.

Se a escrita nasce a partir de uma nobre função, que é de fazer presente aquilo que está ausente, de fazer falar aquele interlocutor que já não está mais, a escrita no whatsapp perdeu seu referente (aqui, a própria ausência). Afinal, sabe-se se o interlocutor está presente ou não, e mesmo sob o signo de sua presença, o usuário continua a trocar mensagens escritas.

À que sujeito serve uma comunicação assíncrona que determina se o outro está presente, se leu a mensagem, se visualizou e não respondeu, se a apagou, se continua digitando, mas não a envia?  É bem provável que todas as ultimas ferramentas oferecidas para os usuários convirjam no sentido da edição: pretendendo assim possibilitar uma medida intensa de controle sobre o campo dos possíveis. Ou então aperfeiçoando um aparato para tentar barrar tiquê, o encontro com o real.

Uma pretensão própria de uma grande feira do sentido: eliminar restos, equívocos, atritos, incongruências, faltas. Esse é o ideal de Zuckerberg: uma comunidade global permanentemente positiva, engajada, solidária, informada, unívoca, feliz. O que a proposição não leva em conta são as subjetivações que habitam esse cálculo.

Assim como a câmera fotográfica, que depende de um olho que passeie, enquadre, escolha o momento do ato, o que de certa forma concebe um aparelho subjetivo, “(…) inteiramente construído com a ajuda de um x e de um y, que habitam o domínio em que vive o sujeito, quer dizer, o da linguagem” (Lacan, 1979, p. 106), os WRS’s e o próprio ciberespaço elevam essa subjetivação ao radical próprio da fantasia.

Nusselder (2009, p.11), considera que, a partir de uma noção freudiana da percepção, poderíamos conceber o ciberespaço como uma “alucinação consensual”: aquilo que não poderíamos realizar na realidade, seria realizado via tela da fantasia. O que de maneira nenhuma esgota a interrogação, afinal a realidade mesma pode ser encarada desta forma, afinal “(…) se a palavra alucinação significa alguma coisa, é esse sentimento de realidade” (Lacan, 1979, p. 141).

Mas coloca o princípio do prazer como central no encanto fornecido pelo ciberespaço – ele remeteria ao próprio objeto. Nusselder (2009) faz então uma analogia entre o ciberespaço e o suporte fantasmático do sujeito – “nas nossas realidades virtuais, nós podemos encontrar o mesmo funcionamento dos objetos fantasísticos, como se fossem mídias que suportam a nossa realidade e nos proporcionam prazer” (Nusselder, 2009, p.11).  Tal passagem relembra a noção lacaniana do Autômaton[1], que é da ordem do “(…) retorno, da volta, da insistência dos signos aos quais nos vemos comandados pelo princípio do prazer” (Lacan, 1988, p. 56).

O que se pressupõe é que o celular, tablet, computador, todas essas janelas que se abrem quando ligamos o aparelho, remontam diretamente ao nosso objeto de desejo, àquele que nos mobiliza tão intensamente que opera, agora, com uma via fantasística materializada, passível de uma edição tentada. Afinal, ao menos hipoteticamente, aquilo que circula como uma imagem digital é passível de camadas de filtros, edições de lembranças, edições de acontecimentos, edições de ideais, edições de edições. Ao contrário de uma pretensa totalidade histórica, um continuo sem esquecimentos, essa imagem digital está sujeita às inúmeras supressões históricas e de memória.

Qualquer leitura que nos propusermos a fazer sobre esse terreno deve levar em conta que ali se mobiliza de forma intensa os afetos – as paixões exacerbadas, sobretudo no campo do afeto político, colocaram os websites de redes sociais no epicentro de discussões que se propõe a pensar o porquê de tanta agressividade nas redes.

Tal questão levanta algumas hipóteses. Daniel Goldin (2001, p. 148), em conversa com Roger Chatier, se refere à um ensaio da escritora francesa Michelle Reverbel, que produz uma reflexão a partir de suas oficinas de literatura, nas quais as crianças (entre 50 e 60%) expressavam desejos violentos, como vontade de matar. Ela sugere que a questão esteja imbricada no suporte: da passagem da escrita física, na qual quaisquer apagamentos deixam manchas (marcas), para as telinhas, como nos vídeos-games, banhados de violência mas deletáveis num simples reset.

O que estaria em jogo seria uma dimensão asséptica, na qual os apagamentos ou as manchas de sangue são simplesmente deletados, como se simplesmente não tivessem acontecido. Essa é uma sugestão interessante e impossível não relembrar o Wunderblock: o bloco mágico do qual Freud (1996) se refere – que cada vez apagado, possibilita novas inscrições. Mas, apesar da base celuloide se encontrar pronta para novas inscrições, se jogarmos luz na prancha de cera, encontraremos alguns traços de inscrições ou elas propriamente ditas, e poderemos até lê-las sob essa perspectiva.

Talvez essa seja a questão que possibilita a violência performática nas redes: uma dimensão asséptica na qual o usuário tem a impressão de que a memória pode ser editada até o apagamento total e que suas manifestações não produzem consequências na realidade[2]. Ainda assim, se trata da uma edição. Eventos recentes evidenciaram que quase tudo que é publicado pode ser retomado, escavado e encontrado no data[3].

Mas poderíamos estender a tese: da exposição de adolescentes aos comentários violentos que recheiam as redes sociais, se o sujeito tem a impressão de que pode simplesmente apagar, editar, desmemoriar sua imagem digital, que é acompanhada também de um memorial próprio, ele mesmo é reduzido à própria ética do enfrentamento, de um presente contínuo – de um sujeito que se supõe, na equação dos WRS’s, jogando um videogame que opera sem as consequências próprias da palavra e do ato, como se tratasse de um simulacro suscetível de apagamento em qualquer eventualidade.

 

Notas:

[1] Lembremo-nos que em Aristóteles (197b6), nenhum inanimado faz algo da ordem de tiquê: “por isso, nenhum inanimado, tampouco besta ou criança alguma, fazem algo por acaso, porque não são capazes de escolher; tampouco se lhes atribui boa fortuna ou infortúnio, a não ser por semelhança, como Protarco disse que são bem afortunadas as pedras das quais são feitas os altares, porque recebem honras, ao passo que suas vizinhas são pisoteadas”. O inanimado então, não pode ser atravessado nem pela eutiquia (bom acaso, ou encontro afortunado) nem pela distiquia (mau acaso, ou infortúnio).

[2] Por exemplo, o escândalo que verdadeiros manuais indutores de suicídio suscitaram recentemente ou comentários agressivos ou com conteúdo de ameaça direcionados para pessoas públicas.

[3] Como o caso de uma magistrada no Brasil que opinava de forma violenta em grupo do Facebook habitado por seus pares e teve publicações antigas evidenciadas por usuários que “escavaram” suas interações.

 

Referências bibliográficas

Angioni, L. (2009) Aristóteles, Física I-II, Campinas: Editora da Unicamp

Goldin, D. (2001) IN Cultura escrita, literatura e história: conversas de Roger Chartier com Carlos Aguirre Anaya, Jesus Anaya Rosique, Daniel Goldin e Antonio Saborit. São Paulo: ARTMED

Freud, S. (1996). Uma nota sobre o “bloco mágico”. In Obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 19, pp. 253-262). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1925)

Lacan, J. (1979) O seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Trabalho original publicado em 1953-1954)

Lacan, J. (1988). O seminário, livro 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Nusselder, A. (2009) Interface fantasy : a Lacanian cyborg ontology. Cambridge: MIT Press.

 

O fim do aparato repressivo no governo Geisel? Na prática a teoria é outra

Mês passado, o governo americano tornou público um documento que revela a participação do Estado brasileiro, na figura do então presidente Ernesto Geisel (1974-1979), na execução de opositores à ditadura militar.

A emergência do memorando, datado de 11 de abril de 1974, reforça a importância dos arquivos e da relação entre política e memória. Bianca Rihan, doutoranda em ciência da informação (IBICT/UFRJ), se tornou mestra em história (UFF/2014), com densa dissertação intitulada “Nas entrelinhas da distensão: a construção de memórias no arquivo pessoal de Ernesto Geisel“.  Um extrato desse debate se encontra em um artigo escrito por Rihan, publicado pela revista Carta Capital, no último dia 15 de maio, reproduzido abaixo.

O fim do aparato repressivo no governo Geisel? Na prática a teoria é outra

Ernesto Geisel tomou posse como presidente do Brasil em 15 de março de 1974. Sucessor de Emílio Médici, Geisel assumiu a presidência em uma conjuntura de recrudescimento dos arbítrios – principalmente após o Ato Institucional nº 5 – que fez inflar o movimento de oposição. Por outro lado, era pressionado a encontrar uma solução positiva frente à crise energética mundial, que ameaçava um dos mais eficientes pilares de propaganda governamental: o crescimento conseguido com o chamado “milagre econômico”. Entendendo o momento delicado pelo qual passava o regime que viria a dirigir, Geisel iniciou seu mandato defendendo novos paradigmas para o mesmo. O general destacou-se na cena pública pelo discurso de flexibilização dos moldes autoritários que passaram a predominar nos governos ditatoriais anteriores, o que, segundo ele, levaria, naturalmente, a uma lenta, gradual e segura abertura política:

“A nossa Revolução é democrática. A minha intenção é preparar, sem precipitação, sem queimar etapas, o caminho que nos leve ao aperfeiçoamento democrático, no contexto de um processo lento, gradual e seguro” (Geisel, 1974).

Endossando o discurso dos próprios militares, boa parte dos estudiosos sobre o período propôs a divisão da organização militar em grupos hegemônicos e divergentes, a que se convencionou chamar castelistas e linha dura. Elio Gaspari é um dos mais conhecidos expoentes dessa interpretação, que define a posse de Ernesto Geisel como um retorno dos castelistas ao poder. Norteado pela necessidade de reconduzir o país à democracia, o governo Geisel representaria a continuação do projeto de Castelo Branco para a abertura política, que ora fora interrompido pela linha dura – adepta da repressão e das perseguições políticas – na figura de Costa e Silva.

Complexificando o debate e os meandros do jogo político constituído no interior das forças armadas, pesquisas mais recentes têm conseguido desconstruir a representação corriqueira que se acostumou a enxergar castelistas e duros a partir de uma lógica binária. Durante o mandato de Geisel, em um contexto de preocupação com a credibilidade do governo, podemos realmente apontar para a regulação dos aparatos de segurança, porém não seria igualmente correto considerarmos algum investimento no sentido de sua extinção. De certa maneira, Geisel se impunha perante a instituição militar, mas na medida em que o governo necessitava do apoio das Forças Armadas, as articulações eram feitas sem constrangimentos.

Da parte de Geisel, a exemplo de seus antecessores, a prática de torturas e assassinatos foi sucessivamente negada, se não, justificada por uma suposta “perda de pulso” das Forças Armadas. Na série de entrevistas que concedeu à Maria Celina D’Aráujo e Celso Castro (1997), Ernesto Geisel diz que seu governo empenhou-se sinceramente em controlar a repressão, mas a dificuldade era enorme, principalmente pela inexistência da firmeza de uma inteligência central. Segundo ele, o CIE do Exército omitia informações do SNI constantemente, prejudicando o procedimento das operações pela presidência: “era um processo de descentralização que ia permitir que as ações particulares ou isoladas desenvolvidas por esses órgãos fugissem ao controle da presidência”. Conforme observamos, os argumentos de Geisel somam-se à continuada tentativa do alto comando das Forças Armadas brasileiras de isentarem-se dos episódios de violência e tortura que fizeram parte de suas práticas durante todo o regime.

Um dos melhores exemplos para confirmar essa hipótese diz respeito aos episódios de assassinatos do jornalista Wladimir Herzog, em outubro de 1975, e do dirigente sindical Manoel Fiel Filho, ocorrido menos de três meses depois, em janeiro de 1976. As mortes do jornalista e do sindicalista, identificados por suas relações com o Partido Comunista Brasileiro (PCB), estimularam grande reação da opinião pública, comoção que levou à demissão do comandante do II Exército, general Ednardo Mello, tachado pelo governo como um provocador da linha dura e oposto à abertura “lenta, gradual e segura” defendida pelo presidente da República. O cargo de Ednardo foi assumido pelo general Dilermando Monteiro, considerado um militar moderado, entusiasta da abertura, e próximo colaborador de Geisel. Porém, os acontecimentos do dia 16 de dezembro de 1976 acabam com o teatro. No episódio que ficou conhecido como a Chacina da Lapa, três dos mais importantes dirigentes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Ângelo Arroyo, Pedro Pomar e João Batista Drummond foram covardemente assassinados depois de um ataque de forças do Exército a uma reunião do Comitê Central do partido.

A autorização e a participação de Geisel na política de execuções do período ditatorial é o que comprova também a divulgação recentíssima de memorando enviado pelo diretor da CIA William Egan Colby, ao Secretário de Estado Henry Kissinger, encontrado pelo pesquisador Matias Spektor, da FGV. No documento (que relata uma reunião de Geisel com os generais Milton Tavares de Souza e Confúcio Avelino – respectivamente os chefes de saída e chegada do Centro de Inteligência do Exército- e com João Baptista Figueiredo, então chefe do SNI), Geisel autoriza “continuar as execuções sumárias de subversivos perigosos sob certas condições”, o que torna incontestável a atuação da alta cúpula do governo na necropolítica de assassinatos e torturas realizada pela ditadura empresarial-militar ao longo de seus 21 anos.

Na pesquisa intitulada “Nas entrelinhas da distensão: a construção de memórias no arquivo pessoal de Ernesto Geisel” observamos, ainda, como os discursos de Geisel (que ajudaram a construir sua memória como o “presidente da abertura” a partir de uma distensão gradual e de um suposto combate à violência) mobilizaram uma série de atores como empresários da indústria ou dos meios de comunicação. Ao se afastarem dos generais taxados de “linha dura” (mesmo depois de se beneficiarem – e de comporem – seus governos), as elites orgânicas desvincularam-se sabiamente de qualquer envolvimento com uma ditadura sanguinária. Ao passo que Geisel, com sua narrativa de salvador da “revolução” e da democracia brasileira, foi elevado a herói do processo de transição política. Exemplo bem marcante foi o editorial do Jornal O Globo, de 2014, que após quase trinta anos evitando comentar os gritos vindos das ruas – “a verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura” – reconheceu o feito, mas não sem encenar um “engano” com o sentido do golpe, e de ressaltar a figura de Geisel como um representante legítimo do verdadeiro espírito da “Revolução” (que teria se desencaminhado pelos desobedientes da linha dura).

Quando já não era mais o presidente da República, o próprio Geisel acabou atacando com as próprias palavras a imagem que tanto contemplou (e que contemplaram por ele).

– O senhor acha que não havia uma necessidade tática de acontecer a tortura? Era sempre uma omissão, uma falta de controle do comandante?

 – Não, nem sempre. Acho que a tortura em certos casos torna-se necessária, para obter confissões. […] O inglês, no seu serviço secreto, realiza com discrição. E o nosso pessoal, inexperiente e extrovertido faz abertamente. Não justifico a tortura, mas reconheço que há circunstâncias em que o indivíduo é impelido a praticar a tortura, para obter determinadas confissões e, assim, evitar um mal maior (GEISEL In: D’ARAÚJO; CASTRO, 1997, p. 225).

Em nota à quarta edição de sua grande obra intitulada “Combate nas Trevas”, o historiador Jacob Gorender (1998, p. 268) arremata com precisão: “Aí estão as justificativas fundamentais de todos os torturadores: em certos casos (o que implica uma escolha supostamente moralizadora), deve-se torturar porque, assim, se evitam coisas piores. A ressalva do entrevistado, no período final, de que não justifica a tortura, resulta contraditória e absurdamente deslocada no contexto geral da sua resposta. Com sua franqueza, Geisel revela que não destituiu o general Ednardo para que cessasse a tortura do DOI/Codi em São Paulo, porém, para que se fizesse sem escândalo”.

Se a significação dos acontecimentos do passado não se estabelece de uma vez para sempre, os documentos liberados recentemente devem ser a oportunidade incontornável de desorganizarmos memórias enquadradas, servindo de interpelação à sociedade brasileira sobre as verdadeiras responsabilidades de generais “adocicados” como Geisel e Castelo Branco nos 21 anos de ditadura, assim como de seus parceiros formadores de opinião e financiadores que, ainda hoje, seguem se articulando para golpear o povo brasileiro.

I JORNADA FLUMINENSE DE PÓS-GRADUANDOS EM ACERVOS, PRESERVAÇÃO E MEMÓRIA

Os programas de mestrado profissional em preservação e Gestão do Patrimônio Cultural das Ciências e da Saúde, da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz; em Preservação de Acervos de Ciência & Tecnologia, do Museu de Astronomia e Ciências Afins; em Memória e Acervos, da Fundação Casa de Rui Barbosa e em Gestão de Documentos e Arquivos, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro lançam a Chamada de Trabalhos para a  I JORNADA FLUMINENSE DE PÓS-GRADUANDOS EM ACERVOS, PRESERVAÇÃO E MEMÓRIA, que será realizada nos dias 18, 19 e 20 de setembro de 2018, noespaço do PPACT no Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), Rua General Bruce, 586 – Bairro: São Cristóvão, Rio de Janeiro – RJ, 20921-030.

O objetivo principal da Jornada é promover o intercâmbio das pesquisas para dissertações ou teses que vêm sendo realizadas ou que foram recentemente defendidas (a partir de 01 de dezembro de 2017) pelos alunos dos programas de pós-graduação de mestrados e doutorados com temáticas sobre acervos, preservação e memória, no estado do Rio de Janeiro. As apresentações dos trabalhos contarão com a participação de professores e pesquisadores como debatedores.

Os trabalhos selecionados serão apresentados na Jornada e os resumos publicados na forma de Caderno de Resumos.

 Os trabalhos serão avaliados pela Comissão Científica.

Data para submissão de resumos: até o dia 31 de maio de 2018.

Data de divulgação do resultado final: 17 de agosto de 2018

 Normas para submissão de trabalhos:

Poderão ser submetidos à Comissão Científica do evento trabalhos em co-autoria com o(a) professor(a) orientador(a) de cada pós-graduando.

O resumo deverá ser enviado acompanhado da Ficha de Inscrição, devidamente preenchida e assinada pelos autores.

O resumo deve conter de 1500 a 2000 palavras (não incluindo o título e as palavras-chave); ser redigido em português; e utilizar a fonte Times New Roman, tamanho 12, normal, justificado, margem esquerda e superior de 3cm, e direita e inferior de 2cm, e espaçamento de 1,5. O arquivo deve ser em formato .doc.

O resumo deve apresentar o tema, o problema, as questões de pesquisa, os objetivos, a fundamentação teórica, métodos/metodologia, resultados (parciais ou finais), considerações finais e bibliografia básica (com até 10 itens).

 O resumo deve ser enviado para o email: <acervospreservacaoememoria@gm ail.com> até 31 de maio de 2018, apenas com o título, sem identificação dos autores.

Os resumos que não estiverem rigorosamente de acordo com as normas serão automaticamente excluídos.

Os resultados dos trabalhos aprovados serão divulgados no site do evento:  <http://site.mast.br/jornada_ fluminense/index.html>  a partir do dia 17 de agosto de 2018.

Estarão disponíveis para a apresentação: computador com acesso à internet e projetor multimídia.

Os autores selecionados deverão fazer sua inscrição no evento para terem direito à apresentação.

Valor da inscrição: R$ 30,00.

A MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO NO CONTEXTO DA ARQUIVOLOGIA

Mariana Lousada[1]

 A Arquivologia oferece fundamentos teóricos, epistemológicos e práticos consistentes que merecem ser discutidos a partir dos parâmetros da mediação da informação. Silva e Ribeiro (2010) compreendem que para analisar os aspectos da Mediação, deve-se antes de tudo analisar as condições, as perspectivas, os estudos e os modelos de acesso e de uso da informação, ou seja, de que forma os serviços interagem com seus utilizadores e como estes se comportam a partir de suas necessidades, situações e contextos, em conformidade com a informação disponível.

O conceito de mediação da informação foi desenvolvido, inicialmente, pensando-se nos serviços de referências no âmbito das bibliotecas. No entanto, tal concepção pode e deve ser apropriada pela Arquivologia, a fim de entender de que forma o usuário e o arquivista lidam com a informação e de que forma o entorno social, as influências e os poderes interferem nessas relações. Almeida Júnior (2009, p.92), define a mediação como: […] toda ação de interferência – realizada pelo profissional da informação –, direta ou indireta; consciente ou inconsciente; singular ou plural; individual ou coletiva; que propicia a apropriação de informação que satisfaça, plena ou parcialmente, uma necessidade informacional.

A mediação está presente em todos os momentos do processo informacional, não somente no momento da disponibilização da informação para o usuário, mas também em todas as atividades desenvolvidas pelo profissional da informação. Isto é, não ocorre apenas no momento do contato do usuário com os documentos e com a possibilidade de obter informações. Ela abarca todas as ações do fazer bibliotecário/arquivístico, desde a construção do acervo, o processamento técnico dos documentos, etc.

O processo mediacional não ocorre de maneira uniformizada, por isso, alguns autores fazem uma divisão em relação as formas de manifestação. Almeida Júnior (2009) entende que há dois tipos, a implícita e a explícita. A mediação implícita compreende todas as ações desenvolvidas antes do contato com o usuário, ou seja, mesmo sem a presença física do usuário, as ações são direcionadas para satisfazer as necessidades informacionais deste. “Abarca as ações que deixam transparecer um conhecimento inconsciente, não passível de controle e que se imbrica com os conhecimentos conscientes”. (ALMEIDA JÚNIOR, 2009, p.93).

Segundo o autor, a mediação explícita caracteriza-se “[…] pelo atendimento direto ao usuário, mesmo que tal presença não seja física, em que não é solicitada a interferência concreta e presencial do profissional da informação […]” (ALMEIDA JÚNIOR, 2009, p.93). Nesse âmbito, as ações são desenvolvidas de forma consciente, subsidiadas pelos conhecimentos que possuímos e somos capazes de exteriorizar. Ainda segundo o autor, a mediação explícita pode ocorrer em dois momentos: um explícito e outro implícito. O primeiro compreenderia as ações desenvolvidas de maneira consciente, tendo como base os conhecimentos que dominamos e o exteriorizamos com razoável controle. O segundo abarcaria as ações que deixam transparecer um conhecimento inconsciente, não passível de controle e que se imbrica com os conhecimentos conscientes.  Toda ação se constitui da junção desses conhecimentos amalgamando a mediação da informação com ações controláveis e não controláveis. A mediação explícita-explícita e a mediação explícita-implícita – por falta, ainda, de denominações melhores – impediriam o controle do sujeito mediador, criando condições para que a interferência possa ser convertida, mesmo que contrariando intenções, em manipulação (ALMEIDA JÚNIOR, 2009, p.93).

Na perspectiva dos arquivos, concordamos com Ferreira e Almeida Júnior (2013), que defendem que a mediação implícita, estabelece-se nas técnicas de organização e tratamento documental e apresenta-se como uma ferramenta que prepara a “proto-informação”, visando à sua transformação em uma “informação” no âmbito da relação profissional arquivista – usuário, de onde é possível constatar a progressão: documento (suporte) – organização documental – pesquisador/usuário – apropriação da informação – produção/modificação/alteração de conhecimento. Os autores ainda complementam que, embora haja uma mediação entre o veículo documento, a informação nele existente e o processamento técnico efetivado pelo arquivista, essa mediação não visa diretamente (nessa etapa) ao enfoque no usuário. Trabalha-se, nesse contexto, a utilização dessa “informação-ainda-não-latente” no âmbito da identificação, seleção, classificação e processamento informacional, o que a caracteriza, portanto, como uma mediação implícita.

Já na mediação explícita, ressaltamos que é fundamental pensar a respeito dos usuários nos arquivos, pois o acesso à informação é a etapa final de toda a função Arquivística, isto é, tornar pública e acessível às informações disponíveis que compõem seus acervos documentais. Materializa-se, necessariamente, com a participação do usuário e apenas no momento em que se dá a relação deste com o suporte que torna possível sua existência; não existindo antecipadamente e transformando o conhecimento de quem e com ela se relaciona (sob pena de não existir caso isso não se realize), entendemos que a informação deva ser mediada e não meramente disseminada ou tampouco transferida. (ALMEIDA JÚNIOR, 2009, p.99).

Os arquivistas, enquanto mediadores da informação, ao terem acesso e desenvolverem ferramentas que auxiliam e favorecem a realização do seu fazer, como o próprio acervo que representa o conhecimento humano registrado; os catálogos, físico e online, que potencializam o acesso às informações contidas no acervo de modo mais rápido; os espaços de comunicação na web que tornam possível a interação entre o arquivo e o usuário e fomentam a troca de informações entre os sujeitos; entre outros dispositivos que contribuem direta ou indiretamente com o fazer dos arquivistas e as atividades prestadas pela biblioteca devem atuar na promoção de atividades mediadoras que possibilitem a inclusão social dos usuários (SILVA; SILVA, 2012).

Os serviços informacionais prestados pelos arquivos se constituem como um dos principais mecanismos para mediação da informação, aproximando o usuário da informação materializada.

Nesse contexto é preciso considerar que a organização documental, de maneira geral, obedece a padrões e instrumentos que podem ser aplicados em qualquer tipo de arquivo, no entanto, é importante destacar o fato de que o arquivista se situa como elemento humano mediador de todo esse processo, portanto, passível de tendências pessoais.

Neste novo ambiente de informação complexo, arquivistas e profissionais da informação devem assumir a responsabilidade e deixar de serem guardiões passivos para se tornarem agentes ativos na gestão dos documentos, a fim de compreender o contexto, os processos de criação dos documentos e sua finalidade funcional (COOK, 2007).

Por fim, consideramos que a profissão do arquivista é dedicada ao serviço, ou seja, manifesta-se por meio da mediação, primeiramente com o documento, para depois relacionar-se diretamente com o usuário. Existe para tornar possível o trabalho de outras pessoas. Sua função é a conservação e disponibilização dos documentos. Seu propósito é promover, sem prejuízos, a construção do conhecimento.

 

Referências:

ALMEIDA JÚNIOR. O. F. Mediação da informação e múltiplas linguagens. Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação, Brasília, v.2, n.1, p.89-103, jan./dez. 2009.

COOK, T. Imposturas intelectuales o renacimiento profesional: posmodernismo y práctica  archivística. Tabula: Revista de Archivos de Castilla y León, n. 10, 2007, p.83-108.

FERREIRA, L. E.; ALMEIDA JÚNIOR. O. F. A mediação da informação no âmbito da
Arquivística. Perspectivas em Ciência da Informação, v. 18, n. 1, p. 158-167, jan./mar.
2013.

SILVA, J. L. C.; SILVA, A. S. R. A mediação da informação como prática pedagógica no contexto da biblioteca escolar: algumas considerações. Bibl. Esc. em Rev., Ribeirão Preto, v. 1, n. 2, p. 1-30, 2012.

[1] Professora do DEPA/UNIRIO. Doutora em Ciência da Informação.

Katherine Johnson, a matemática da NASA

 

Franciéle Carneiro Garcês da Silva | bibliotecária e mestranda em Ciência da Informação no IBICT/UFRJ

Katherine Coleman Goble Johnson nasceu em agosto de 1918, em White Suphur Springs, nos Estados Unidos e é uma matemática e cientista espacial afro-americana que colaborou com a National Aeronautics and Space Administration (NASA) ao calcular trajetórias de voo espacial para projetos críticos, tais como da viagem da Apollo 11 à Lua em 1969.

A cientista Katherine Johnson, em 1966. Fonte: Domínio Público.

A cientista Katherine Johnson, em 1966. Fonte: Domínio Público.

 

Sua afinidade com os números aconteceu desde a infância, quando, por conta de seu rápido desenvolvimento passou à frente dos colegas de classe em várias séries. Entretanto, não pôde frequentar a escola depois do 8º ano em sua cidade natal por ser uma mulher negra que vivia no período de segregação racial nos Estados Unidos, onde as possibilidades para jovens negras eram muito limitadas. Terminou a escola secundária no West Virginia State College aos 14 anos e quando tinha 18 anos começou a ter mentoria do professor de Matemática, W. W. Schieffelin Claytor, o terceiro afro-americano a obter um Ph.D. em Matemática. Em 1937, Katherine se graduou com honrarias em Matemática e Francês e foi contratada para trabalhar como professora em uma escola pública para negros na Virgínia.

No ano de 1939, Katherine foi escolhida, juntamente com outros dois estudantes negros, para ingressar em uma escola de pós-graduação da Virgínia Ocidental. O presidente da West Virginia State College, Dr. John W. Davis foi quem escolheu os primeiros alunos a ganharem vagas na West Virginia University, considerada a principal universidade do estado. Com esse convite, Katherine se matriculou no Programa de Pós-Graduação em Matemática e deixou a escola em que trabalhava. Posteriormente, precisou trancar sua matrícula para poder dedicar-se à família.

Em 1952, após suas filhas estarem maiores, Katherine retornou ao trabalho. Desta vez, a matemática foi para a Seção de Computação da Área Oeste, do Comitê Consultivo Nacional para Aeronáutica (NACA), atual NASA, para trabalhar como “computador”. Antes dos computadores eletrônicos, o termo “computador” se destinava às pessoas em vez de máquinas, pois realizavam cálculos matemáticos complexos à mão, individualmente ou em grupo, sendo chamados de “escritórios de computação” ou “pools de computadores”. Esta profissão teve origem no século XVIII em áreas onde enormes quantidades de dados precisavam ser processadas (e.g. astronomia, ciências sociais e balística). O crescimento dos “pools de computadores” aumentou no período entre guerras nos Estados Unidos como preparação para a Segunda Guerra Mundial e levou à uma grande escalada científica e pesquisa militar.

O Comitê Consultivo Nacional de Aeronáutica (NACA) foi formado em 1915 durante a Primeira Guerra Mundial, e possuía o objetivo de coordenar pesquisas de cunho industrial, acadêmico e governamental. Langley Memorial Aeronautical Laboratory, o principal laboratório de pesquisa da NACA, começou a contratar “computadores” na década de 1930, mas os “computadores” deste período eram mulheres brancas que tinham graus em matemática. Devido à segregação racial no governo, nas universidades e na sociedade em geral, eram raras as oportunidades para mulheres afro-americanas obterem emprego nas indústrias federais de defesa ou buscar as ciências fora das Faculdades e Universidades Historicamente Negras (Historically Black Colleges and Universities). Até o ano de 1958, o local de trabalho de Katherine era segregado. Assim, elas e outras mulheres afro-americanas “computadores” trabalhavam, comiam e usavam banheiros separados dos trabalhadores brancos.

Após mudar-se com sua família, Katherine começou a trabalhar no NACA Langley, em junho de 1953. Posteriormente, foi transferida por Dorothy Vaughan para um projeto na Divisão de Cargas de Manobra, na Divisão de Pesquisa Voo e passou a ser uma contratada permanente.

De 1953 a 1956, Katherine analisou dados de testes de voo e trabalhou na investigação de uma queda de avião causada pela turbulência da esteira. Nesse período ainda não existiam computadores eletrônicos e sob título de “computador”, Katherine calculava trajetórias, janelas de lançamento e caminhos de retorno de emergência para voos espaciais, entre estes, realizou a análise de trajetória para a missão Freedom 7 de Alan Shepard, o primeiro americano no espaço.

Foi a partir do lançamento do satélite soviético Sputnik no ano de 1957 que a vida de Katherine Johnson mudou. Em 1957, Katherine elaborou alguns dos cálculos apresentados no documento de 1958, Notes on Space Technology, um compêndio de uma série de palestras de 1958 ministradas por engenheiros da Divisão de Pesquisa de Voo e da Divisão de Pesquisa de Aeronaves Sem Pilotos. Engenheiros desses grupos formaram o núcleo do Grupo de Tarefas Espaciais, a primeira incursão oficial do NACA em viagens espaciais. Katherine trabalhou com muitos deles desde que foi para Langley, inclusive, quando o NACA se tornou a NASA.

Em 1960, Katherine escreveu em coautoria com o engenheiro Ted Skopinski, o Relatório Determination of Azimuth Angle at Burnout for Placing a Satellite Over a Selected Earth Position, no qual são apresentadas equações que descrevem um voo espacial orbital no qual a posição de aterrissagem da espaçonave é especificada. Foi a primeira vez que uma mulher da Divisão de Pesquisa de Voo recebeu crédito como autora de um relatório de pesquisa.

Quando os computadores eletrônicos entraram na NASA, Katherine combinou seu talento para a matemática com conhecimentos de informática eletrônica para garantir o sucesso das missões espaciais Apollo e os primeiros voos do programa de ônibus espaciais. Alguns dos astronautas confiaram mais nos cálculos de Katherine do que nos primeiros computadores eletrônicos, pedindo-lhe que checasse os cálculos feitos pelos computadores eletrônicos.

Em 1962, quando a NASA se preparou para a missão orbital de John Glenn, Katherine Johnson foi chamada para fazer o trabalho pelo qual ela se tornaria mais conhecida. A complexidade do voo orbital exigiu a construção de uma rede mundial de comunicações, ligando estações de rastreamento em todo o mundo a computadores IBM em Washington, Cabo Canaveral e Bermudas. Os computadores foram programados com as equações orbitais que controlam a trajetória da cápsula na missão de John Glenn, Friendship 7. No entanto, os astronautas tinham receio de colocar suas vidas ao cuidado das máquinas de calcular eletrônicas, que eram propensos a apagões. Como parte da lista de verificações prévias, Glenn pediu aos engenheiros para “fazer a garota” – Katherine Johnson – executar os mesmos números através das mesmas equações que haviam sido programadas no computador, mas à mão, em sua máquina de calcular mecânica de mesa. “Se ela diz que é boa”, Katherine Johnson lembra que o astronauta disse “então, estou pronto para ir”. O voo de Glenn foi um sucesso e marcou um ponto de virada na competição entre os Estados Unidos e a União Soviética no espaço.

Autora e coautora de 26 relatórios da NASA e com papel fundamental na sincronização do Lunar Lander, do Projeto Apollo, Katherine Johnson aposentou-se após 33 anos de NASA. Em 2015, o presidente Obama concedeu à cientista de 97 anos, a maior honraria civil dos Estados Unidos, a Medalha Presidencial da Liberdade.

Katherine condecorada com a Medalha Presidencial da Liberdade, em 2015

Katherine Johnson condecorada com a Medalha Presidencial da Liberdade, em 2015. Fonte: Domínio Público.

REFERÊNCIAS

A HISTÓRIA DAS “Estrelas Além do Tempo” Reais da NASA. Scientific American Brasil. Disponível em: <http://www2.uol.com.br/sciam/noticias/a_historia_das__-estrelas_alem_do_tempo-_reais_da_nasa.html>. Acesso em: 11 abr. 2018.

A LIFE IN SCIENCE. Katherine Johnson. Catalyst, February 2017. Disponível em: <https://www.stem.org.uk/system/files/elibrary-resources/2017/03/A%20life%20in%20 science%20Katherine%20Johnson.pdf >. Acesso em: 11 abr. 2018.

CENTER FOR HISTORY OF PHYSICS AT AIP. Lesson Plan: “When Computers Wore Skirts:” Katherine Johnson, Christine Darden, and the “West Computers”. 2012. Disponível em: <https://www.aip.org/sites/default/files/history/files/LessonPlan_JohnsonDardenandWestComputers.pdf>. Acesso em: 11 abr. 2018.

NATIONAL AERONAUTICS and Space Administration. Katherine G. Johnson. Marc. 1969. Disponível em: <https://crgis.ndc.nasa.gov/crgis/images/5/5e/KatherineJohnson.pdf>. Aceso em: 11 mar. 2018.

SHETTERLY, Margot Lee. Katherine Johnson Biography. NASA: National Aeronautics and Space Administration. Aug. 3, 2017. Disponível em: <https://www.nasa.gov/content/katherine-johnson-biography>. Acesso em: 10 abr. 2018.

SKOPINSKI, Ted.; JOHNSON, Katherine G. Determination of Azimuth Angle at Burnout for Placing a Satellite Over a Selected Earth Position. NASA: National Aeronautics and Space Administration. Washington, September 1960. Disponível em: <https://ntrs.nasa.gov/archive/nasa/casi.ntrs.nasa.gov/19980227091.pdf>. Acesso em: 11 abr. 2018.

Nem cidade, nem sociedade da informação: não-ser político e científico na urbe capitalista

 

Monique Figueira | bacharela em comunicação social e doutoranda em Ciência da Informação no IBICT/UFRJ

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo…
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura…
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte,
empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos
porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres
porque a nossa única riqueza é ver.
(Alberto Caeiro*)

 

Mais que tempos de crise, vivemos em um sistema político e econômico que deles se retroalimenta. Nossos maiores pesadelos ontológicos voltam em ciclos porque a história parece pouco conseguir nos ensinar. Só aprendemos na marra, ou seja, na práxis. Hoje muito se fala de pós-verdades e fake news, mas são apenas novas nomenclaturas para problemas antigos da manipulação ideológica. Essa conjuntura se sustenta pois alienação não remete a um fenômeno passivo, mas que também ativamente produz significações.

As narrativas dominantes emergem dos maiores produtores de interpretações: a sociedade civil, as instituições políticas e a ciência. Apesar do mútuo condicionamento, em geral conferimos ao âmbito civil o caos do senso comum, à política uma expectativa de pureza anticorrupção e taxamos ingenuamente a ciência como esfera que paira acima das anteriores, mais neutra e racional. Porém, o que se discrimina na vida prática cotidiana inevitavelmente afeta as posturas do poder público e acadêmico.

Para a filósofa Agnes Heller, o nível de alienação social pode ser medido pela distância entre a consciência média da população em relação à possibilidade máxima de conhecimento desenvolvido à época (HELLER, 2008, p. 58). Por essa concepção, somos mais alienados que comunidades primitivas, já que nelas há igualdade e entendimento integral sobre as narrativas disponíveis. Não à toa, sociedades indígenas e tribais, por exemplo, não possuem processos de segregação como populações carcerárias ou em situação de rua – segmento social que permeia o viés aqui tratado, objeto de minha dissertação de mestrado defendida em 2018.

Contudo, em vez de estudo de caso pontual que reflete um país classista, racista, machista e homofóbico, a ocorrência de populações em situação de rua diz respeito ao modus operandi da globalização capitalista. A luta dos sem-teto ecoa em todo o mundo, inclusive em nações tradicionalmente conhecidas por políticas robustas de bem-estar social. A austeridade neoliberal das últimas décadas tem levado a índices recordes de cidadãos em situação de rua em todos os países da União Europeia, com exceção da Finlândia. Questões que soam como singularidades brasileiras na verdade dialogam com particularidades internacionais, compondo a totalidade capitalista, em constante universalização.

No caso latino-americano, o subdesenvolvimento se manifesta com especial vigor na ausência de informações sobre a realidade (PINTO, 1973, p. 94). No Brasil o censo federal, principal método de coleta de dados oficiais, é realizado desde 1872, porém a partir do escopo domiciliar. O critério da casa como elegibilidade para cidadania explicita a hegemonia da propriedade privada. Reverte-se a lógica: um cidadão sem endereço fixo deve ser ignorado ou priorizado nas políticas públicas? A efetividade política decorre da amplitude do conhecimento disponível sobre um público-alvo. Sem compreender seus desafios e códigos específicos, a atuação estatal está fadada ao fracasso da generalização distanciada, que com frequência se omite em intervir. Quando não, ora leva ao assistencialismo, ora à repressão.

Populações móveis** são historicamente desconsideradas nos estudos oficiais brasileiros, lacuna no regime de informação federal que reverbera nos estados e municípios, agravando a dimensão do problema. Entretanto, a ideia de país representa mera abstração: é a cidade o lócus real dos serviços públicos e da atuação civil. Apesar do Brasil já ser 84% urbano, o IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, órgão mais competente do país para estudos do território e sua população, demonstra distanciamento desse segmento social. A Ciência da Informação tampouco dele se ocupa.

Somente em 2008 foi realizado o único mapeamento nacional dos cidadãos em situação de rua. Dado que há maior incidência em grandes aglomerações urbanas, a pesquisa priorizou cidades com mais de 300 mil habitantes, no fim abrangendo apenas 71 dos 5.570 municípios do país. O levantamento constatou que cerca de 70% desses cidadãos trabalha (BRASIL, 2008, p. 10), compondo a camada mais vulnerabilizada da classe trabalhadora, pois subempregada na economia informal, 98% sem carteira assinada. Assim, torna-se imprescindível desmistificar a noção de que esses cidadãos seriam “vagabundos”, “mendigos” ou “pedintes”*** .

Devido ao desconhecimento generalizado vemos em São Paulo**** a gestão municipal de João Doria tratando sob o mesmo rótulo ~ os cracudos ~ identidades díspares como a população em situação de rua, dependentes químicos e cidadãos com transtornos psíquicos. Enquanto isso, há muito a experiência especializada com cada um desses grupos viabiliza reconhecer suas características e a necessidade de abordagens próprias para o serviço social adequado.

Vale destacar que o termo pejorativo “Cracolândia” não trata de um lugar específico, mas um ethos de cidadania emblemático da segregação capitalista. Típico do senso comum, confunde-se questão de assistência social e saúde pública com caso de polícia, mascarando em seus sintomas a causa real do problema. Não há epidemia de crack, mas epidemia de miséria sistêmica. O teatro midiatizado das megaoperações policiais não prende grandes traficantes mas, no máximo, dependentes químicos que realizam transações irrisórias no varejo para sustentar o vício. Os verdadeiros traficantes não ficam expostos em guetos, eles transitam livremente em helicópteros.***** Não são combatidos pelo Estado, pois fazem parte do Estado.

Tal deslocamento decorre da negligência às evidências empíricas. Rapidamente passamos do (não) objeto científico para a política, já que a realidade não é cartesiana. Nenhuma análise que tente ser coerente pode separar os assuntos em caixinhas estanques, como pregado pelos antolhos liberais. “Não-ser” remete à inexistência de um conceito ou pauta, e o que nem se nomeia não tem como receber a devida atenção. Eis que a população em situação de rua se encontra no limbo entre as políticas identitárias e a luta de classes.

Muitos consideram as sociedades contemporâneas como da “informação” ou do “conhecimento” por carregarmos no bolso um mundinho filtrado que em nada tem revolucionado (no sentido político, estrutural) as históricas desigualdades socioeconômicas. Atualmente se tornou emblemática a cena de um transeunte fixado na tela do celular enquanto ignora questões públicas graves, já que as mazelas da vida na rua manifestam o sistema calcado na violação de direitos civis básicos. Para a Ciência da Informação e áreas afins, esta discussão busca equilibrar a fé desmedida no advento técnico. As tecnologias de comunicação e informação de certo ampliam o potencial de intercâmbio inerente às sociedades mas, paradoxalmente, mantêm intacto o dilema da desconexão social. Enquanto a virtualidade dos novos fluxos informacionais desfrutam de caráter abstrato, desterritorializado, a segregação socioeconômica dói na carne, é material e tangível.

Problemas comunitários evidentes são naturalizados, porque no capitalismo nossas prioridades são privadas. Ainda assim, a sociedade ocidental recebe o rótulo de “conectada”, porém o contexto do sujeito – logo, também do Estado ou da ciência – define o que será tomado como de fato informação ou mais um ruído em ambientes saturados. Se as grandes cidades expõem como a desigualdade opera por meios plurais e interdisciplinares, a Ciência da Informação também tem a contribuir ao enfrentar os dilemas urbanos que permeiam o país – e conhecer exaustivamente o território e sua população representa um dos mais importantes índices de progresso social.

 

NOTAS:


* Heteronômio do poeta Fernando Pessoa.

** Outros grupos sociais também impõem entraves metodológicos aos institutos de pesquisa quanto à configuração de suas bases espaciais e zonas de mobilidade, como comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas.

*** O termo população em situação de rua denota o caráter coletivo e transitório desse fenômeno, substituindo nomenclaturas correntes que individualizam e congelam o estigma. “Morador de rua” é tido como inapropriado pois o estado de exposição ao relento não cumpre necessidades básicas da dignidade humana para que seja considerado moradia. Já “mendigo” vem do latim mendicus, derivado de mendum, defeito físico – denominação historicamente ligada aos inválidos que dependiam de caridade para sobrevivência por não poderem trabalhar. Disponível em https://www.dicionarioetimologico.com.br/mendigo/.

**** A criminalização da mendicância está enraizada país afora. Desde 2015 no Rio de Janeiro, a Fecomércio, Federação do Comércio do Estado, financia a operação policial Segurança Presente, que reprime, em sua maioria, cidadãos negros ou em situação de rua. Os bairros da Lapa, Aterro, Lagoa e Méier teriam sido selecionados com base em estudo de segurança pública, indicando as zonas mais necessitadas de atenção governamental, apesar de não apresentarem os maiores índices de violência. O então secretário de governo admitiu que a Fecomércio selecionou os locais: “Como em qualquer lugar do mundo, quem financia escolhe”. Essa é a primeira vez na cidade que um projeto de segurança é totalmente financiado pela iniciativa privada. Disponível em http://apublica.org/2016/02/operacao-policial-financiada-por-empresarios-cariocas-mira-moradoresde-rua/. Já em Santa Catarina, a Câmara de Vereadores de Balneário Camboriú aprovou no fim de 2017 um projeto de lei do PMDB que estabelece multa de até R$ 2,6 mil para “pedintes”, ambulantes e artistas de rua. Outra clara tentativa de higienizar áreas turísticas, a proposta afirma que essas atividades representam “perigo ou obstáculo para o trânsito”. Disponível em https://www.nsctotal. com.br/colunistas/dagmara-spautz/vereadores-de-balneario-camboriu-aprovam-multa-para-pedintes-que. O cenário nacional não é diferente de outros países. Nos EUA, a cidade de Berkeley, considerada progressista, vem votando com apoio de empresários normativas apelidadas de “lei anti-pobre”. As medidas visam impedir cidadãos de sentar ou deitar nas ruas do centro e delimitam quanto espaço de calçada pode ser ocupado com pertences. Disponível em https://www.theguardian.com/us-news/2017/mar/15/berkeley-california- homeless-identity-crisis.

***** Em 2013 um helicóptero da família Perrella, aliada ao senador Aécio Neves, do PSDB, foi apreendido pela polícia com meia tonelada de cocaína. O piloto, o copiloto e dois interceptadores da droga chegaram a ser presos em flagrante, mas foram liberados (hoje o piloto exerce a profissão normalmente e é proprietário de três helicópteros). O senador Zezé Perrella e seu filho, o ex-deputado estadual Gustavo Perrella, não foram indiciados e o helicóptero ainda lhes foi devolvido, em contrariedade à Lei Antidrogas (n° 11.343/2006, art. 62: veículos utilizados para a prática do crime ficariam sob custódia da autoridade policial). Em 2016 Zezé Perrella votou a favor do impeachment e da perda de direitos políticos da presidenta Dilma Rousseff e, em 2017, contra o afastamento de Aécio Neves, acusado de corrupção, suborno e obstrução da justiça. O Senado revogou a decisão da Suprema Corte de afastar Neves do cargo.

 

REFERÊNCIAS 

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Pesquisa Nacional sobre a População em Situação de Rua. Brasília: Secretaria de Avaliação e Gestão da Informação, 2008.  

 ______. Lei no 11.343, de 2006. Institui o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas; prescreve medidas para prevenção do uso indevido e reinserção social de dependentes; estabelece normas para repressão ao tráfico e define crimes.  

 HELLER, Agnes. O cotidiano e a história. São Paulo: Paz e Terra, 2008. 

 PINTO, Álvaro Vieira. El pensamiento crítico em demografia. Santiago: Centro Latino-americano de Demografia, 1973.

I Seminário de Extensão do Laboratório CDOC-ARREMOS de 2018 ocorrerá na UNIRIO

Ocorrerá no dia 11/04/2018, às 16h, na UNIRIO, a primeira edição de 2018 dos Seminários de Extensão promovidos pelo Laboratório de Estudos sobre Cultura Documental, Religião e Movimentos Sociais (CDOC-ARREMOS).

Nesta edição o tema será “A importância da preservação e acesso aos acervos das Polícias Políticas”. Seguem abaixo mais informações sobre o evento, o formulário de inscrição e a arte de divulgação.

Palestrantes:
Margareth Fontaine (Divisão de Conservação – APERJ)
Clarissa Ramos Gomes (Dpto. de Gestão de Acervo – APERJ)

Local: Auditório do Programa de Pós-Graduação em Informática, no CCET, UNIRIO.

Endereço: Av. Pasteur, 458 – Urca, Rio de Janeiro – RJ, 22290-250

Para garantir sua inscrição e certificado, preencha o formulário através do link: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSfNpSGD1rAi7SYbsNf6KRYp2ZdzqzkGL0XnZQzSULghpTFDiA/viewform

 

imagem divulgação 1 seminario CDOC-ARREMOS

Leolinda: pioneira inspiração

Marcia Quintslr | matemática, mestranda no IBICT/UFRJ e tecnologista do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística*

Linguagem e História: opressão e resistência

O mês de março é dedicado internacionalmente à defesa dos direitos das mulheres. Lembrar Leolinda Figueiredo Daltro, brasileira, mulher, mãe, educadora e ativista das causas indígena e feminista é um modo de fazer justiça à sua precursora atuação desde o século XIX, tendo mantido suas convicções até o fim de seus dias, em 1935.

A histórica e a dimensão sociopolítica da Organização do Conhecimento (OC) constituem-se em campos do saber que atendem à desnaturalização de padrões canônicos que induzem preconceitos e discriminação, acarretando violências simbólicas e físicas contra diferentes grupos oprimidos, o que inclui as mulheres.

A vida de Leolinda é observada à luz da violência simbólica exercida através da linguagem, recorrentemente utilizada como instrumento de opressão das lutas femininas. Uma incursão histórica é desenvolvida com base em estudo que focaliza duas emblemáticas mulheres – Hipátia e Joana D’Arc, como primeiro e segundo pontos na “linha do tempo” da evolução histórica aqui observada. Leolinda corresponde ao terceiro.

O quarto ponto refere-se aos dias atuais e corresponderia a Judith Butler apenas. No entanto, uma atrocidade, com forte conotação e impacto político, atravessou o processo de elaboração deste texto. Assim, Marielle Franco e Anderson Gomes constituem necessárias presenças à linha do tempo que orienta a argumentação aqui apresentada.

Classificações, linguagem e padrões sociais historicamente determinados

No portal da International Society of Knowledge Organization, ISKO, está estabelecido que OC compreende, entre outros aspectos, a história, conceitos e desafios práticos do ato de classificar, abarcando a reflexão sociopolítica sobre o impacto de diferentes sistemas de organização do conhecimento, o que inclui os sistemas classificatórios, que se encontram na origem da OC (DAHLBERG, 2006).

É atinente à luta feminista a categorização de sexo, que segue um padrão de classificação binário, cuja pertinência hoje se discute. Este padrão tem reforçado, ao longo da história da humanidade, diferentes patamares de naturalização de supremacia dos homens sobre as mulheres. Feministas, como Leolinda, questionaram essa “superioridade”, que negava às mulheres, por exemplo, o direito ao voto ou a ser votada.

Hoje, os movimentos de mulheres reclamam que as remunerações das mulheres são inferiores às dos homens em mesmas funções. Também, a violência física contra mulheres, que refletem o poder dos homens sobre os corpos femininos, é parte da luta contemporânea (RIBEIRO e OLIVEIRA, 2017).

Assim, a luta feminista pode ser resumida na resistência à indevida adoção da categorização de sexos, que produz efeito adicional classificador que estabelece opressor e oprimido.  A História e a perspectiva crítica sobre os impactos sociais dos Sistemas de Organização do Conhecimento (SOC), assim como do uso da linguagem, propiciam compreensão sobre as naturalizações absorvidas socialmente (BOURDIEU, 2008), cujas consequências podem ser gravíssimas (VIGNAUX,1999).

Leolinda luta por direitos e contra o ridículo atribuído às mulheres

Foto: Arquivo Público

Foto: Arquivo Público

Leolinda Figueiredo Daltro, mulher separada, mãe de cinco filhos, nasceu na Bahia, viveu em Cascadura, subúrbio carioca e viajou pelos sertões. Com mais de 70 anos de idade candidatou-se a constituinte. Dizia-se reformadora, pois reivindicava e lutava em favor de justos direitos para as mulheres, de educação laica para os índios e do amplo acesso à educação. Sua atuação como educadora, inclusive em turmas noturnas para crianças e mulheres que tinham necessidade de trabalhar ao longo do dia, se estendeu até sua velhice (KARAWEJCZYK, 2014).

Em sua lápide está registrada declaração amorosa dos familiares para a mesma mulher a quem, por sua luta, se designou como “mulher do diabo”. Num epitáfio do cemitério São João Batista, na cidade do Rio de Janeiro, está escrito:

Leolinda Figueiredo Daltro Mamãe – nosso ourinho 14/07/1859 – 04/05/1935

“Precursora do verdadeiro feminismo pátrio. Propugnadora da nobilitação dos humildes e humanização dos selvícolas.” (KARAWEJCZYK, 2014)

A defesa da educação laica para indígenas demonstrava o desejo de Leolinda para configurar outra desnaturalização: o caráter hegemônico atribuído às religiões cristãs, que impunham crenças afastadas dos valores culturais dos índios brasileiros. A citação a seguir apresenta entre aspas uma declaração de Leolinda.

Essa atuação que envolveu viagens a longínquos sertões para alfabetização de povos indígenas, aos quais não buscava civilizar, mas “dar dignidade por meio da Palavra (dita e escrita). Ensinar o índio a ler e escrever era dar-lhe possibilidade de ser brasileiro.” (JARDILINO, 2016, p. 7)

Melo e Marques (2016) destacaram que essa atuação rendeu perseguições e a alcunha de mulher do diabo. Em razão de suas ideias, Leolinda sofreu, em Uberaba, toda sorte de perseguições por parte da elite local, chegando a ser escorraçada da cidade por uma turba que a chamava de mulher do diabo. (MELO e MARQUES, 2016)

Segundo as duas autoras, percebeu que muitos dos seus insucessos na causa indigenista se deviam à sua condição de mulher, reforçando seu empenho para as lutas feministas.

Na defesa do voto feminino, promoveu grupos de debates entre mulheres. Criou o Partido Republicano Feminista, PRF, a partir de junta feminina que apoiara Hermes da Fonseca, durante o processo eleitoral. Pinheiro Machado, pós-eleições inspirou a criação do partido.  (MELO e MARQUES, 2016)

A causa sufragista de Leolinda sofreu resistências, também, de mulheres. Era consistentemente naturalizada a condição da mulher como ser não político, situação identificada como um “pedestal cercado de respeito público”, conforme fragmento de manifesto contrário à sua luta e de suas companheiras pelo voto feminino.

[…] tenho a certeza absoluta de que, as minhas patrícias repelirão essa inovação perigosa, que vem abalar os alicerces do lar, infiltrando na família o veneno das paixões políticas. Esse novo perigo que nos ameaça devemos a ação dissolvente da professora Leolinda Daltro que, ao lado de algumas amigas e do deputado Maurício de Lacerda, tudo tem feito para nos arrancar do pedestal em que vivemos, cercadas de respeito público. (A Epoca, 14 jun. 1917, p. 1, apud, MELO e MARQUES, 2016 )

A professora Leolinda, no livro que publicou em 1920 (mais de 20 anos após ter se afastado da causa indigenista) registrou atentado contra sua vida, situação em que foram assassinados seus protetores, o coronel Leão Leda e seu filho. Leolinda vivenciou, portanto, uma situação clássica em que a palavra, que discrimina, ofende e oprime, anuncia e respalda intenções ou atentados contra a integridade física ou contra a própria vida. Não minimizava a força das palavras. Afirmou à revista da Federação que “teve ela que lutar contra a pior das armas de que se serviam os adversários da mulher: o ridículo” (MELO e MARQUES, 2016).

Linguagem e opressão: Hipátia, Joana D’Arc e Judith Buttler**

Ribeiro e Oliveira (2017) realizaram estudo sobre filmografias com vistas a identificar a opressão e violência sofridas por mulheres e sua naturalização ao longo da história. Analisaram dois filmes, visando utilizá-los em aulas de história sobre a violência e opressão contra mulheres. No primeiro, a ousadia de Hipátia (filósofa e professora em Alexandria, no Egito entre os anos 355 e 415 d.C) por sua incursão no mundo do conhecimento lhe rendeu o título de bruxa e outros e foi apedrejada e sofreu sufocamento. Tratava-se da negação do ato de estudar e de se propor a quebra de paradigma científicos, além de questionamento sobre poder que exercia. A bruxa e o mal que encerrava foram para a fogueira no segundo filme, sobre a vida de Joana D’Arc que, no século XV, liderou exércitos. “Considerava-se que essas mulheres tinham cometido heresia, que adoravam o diabo e tinham trazido o mal à comunidade […]” (BUTLER, 2017, apud, RIBEIRO e OLIVEIRA, 2017)

E, hoje, o que ocorre? Não nos são negados os direitos primordiais pelos quais brigaram nossas antepassadas. Houve avanços, em que pese o desbalanceamento ainda vigente de oportunidades, por exemplo, para mulheres pesquisadoras frente aos homens. Os movimentos feministas denunciam as disparidades salariais e a violência contra mulheres, que se expande também segundo perspectivas mais amplas de diferentes identidades de gênero e escolhas sexuais.

Questiona-se inclusive a classificação binária, que não contempla diferentes expressões de gênero que buscam visibilidade em sociedade. As agências estatísticas da Austrália, Canadá e Nova Zelândia propuseram, na reunião do grupo de especialistas em classificações estatísticas de 2017 uma terceira categoria para a variável sexo de modo a contemplar diferentes nuances da temática de gênero.

Infelizmente, em que pese as conquistas e que as lutas tenham hoje foco mais complexo, a violência com a palavra, como prenúncio de violência física seguem presentes. Não faz muito tempo, a pesquisadora da temática de gênero, Judith Buttler,  veio ao Brasil para ministrar palestras sobre sua extensa e reconhecida obra como pesquisadora. Foi perseguida em locais públicos, por pequenos grupos de pessoas contrárias ao que entendem ser a “ideologia de gênero”, supostamente defendida por Judith. Xingamentos e cartazes associando-a a bruxas e demônios integravam essas manifestações.

Marielle, Anderson e a linguagem de resistência

Foto: Creative Commons

Foto: Creative Commons

A conexão se fez obrigatória, com a recente execução de Marielle Franco, mulher, brasileira, negra, lésbica, favelada. Vereadora eleita pela cidade do Rio de Janeiro, era defensora dos Direitos Humanos e das causas feministas. Atuava com firmeza no combate a política de segurança pública vigente que expõe à violência moradores das favelas do Rio de Janeiro, assim como os contingentes policiais, também vindos de segmentos populacionais mais desfavorecidos sob o ponto de vista socioeconômico. Muitas vidas têm sido dizimadas.

Tinha posicionamento contrário à intervenção militar na gestão da segurança pública do Estado do Rio de Janeiro. Denunciou excessos. Foi executada. Anderson que dirigia o carro que conduzia Marielle foi assassinado, sendo alvejado por tiros dirigidos à vereadora. Sua morte teve repercussão nacional e internacional.

No campo da força simbólica da linguagem, a defesa intransigente dos direitos humanos sofre com o questionamento de sua pertinência. Foi popularizada a noção de que não são defendidos os “humanos direitos”, mensagem com carga simbólica importante, utilizada nas redes sociais para minimizar a gravidade dos crimes contra Marielle e Anderson.

Ela se mostrou competente com símbolos, sendo interessante observar que quebrou a conotação opressora dos termos favelada e favelado, costumeiramente aplicados no campo do “ridículo”, no mesmo sentido usado por Leolinda em relação à opressão sobre as mulheres. Marielle e suas equipes os resgataram. Transformou-se o lugar de moradia das comunidades faveladas em resistência e solução integradas à cidade, a partir da formulação e repetição da seguinte afirmativa:

– “A favela não é problema. A favela é a cidade. A favela é solução.”

 Esse percurso, motivado pelo reconhecimento ao pioneirismo de Leolinda, reflete linha do tempo de opressões às causas emancipatórias mais longa do que seria desejável, ratificando importante área de estudo que se configura em atuação multidisciplinar, envolvendo os campos da História, da linguagem e da dimensão sociopolítica da Organização do Conhecimento.

*O conteúdo deste artigo é de inteira responsabilidade da autora.
** Fotos: Creative Commons

 

Referências

BOURDIEU, P. (2008), Razões práticas: sobre a teoria da ação. Papirus Editora, 2008.

DAHLBERG, Ingetraut. Knowledge Organization: a new Science? Knowl. Org. 33, n.1, 2006 pp. 11-19.

JARDILINO, J. (2016), Carta ao leitor,  Rev. hist.edu.latinoam – Vol. 18 No. 26, enero – junio 2016 – ISSN: 0122-7238 – p. 7

KARAWEJCZYK, M. (2014), Os primórdios do movimento sufragista no Brasil, Estudos Ibero-Americanos, PUCRS, v. 40, n. 1, p. 64-84, jan.-jun. 2014.

MELO, H. e MARQUES, T. (2016), DALTRO, Leolinda de Figueiredo, http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/DALTRO,%20Leolinda%20de%20Figueiredo.pdf.

RIBEIRO, R. e OLIVEIRA, S. (2017), Historicizando a violência contra as mulheres: uma proposta de abordagem feminista de filmes históricos no ensino da história, http://bdm.unb.br/bitstream/10483/17599/1/2017_RebeccaMariaQueirogaRibeiro.pdf.

VIGNAUX, G. (1999), O demónio da classificação: pensar, organizar. Instituto Piaget, 1999, Éditions du Sueil, 1999.

 

 

 

 

Informação em pauta

 

O outono chegou e com ele vieram duas novidades: o I Congresso Internacional de Humanidades Digitais (HDRio 2018), realizado na Fundação Getúlio Vargas, entre 9 e 13 de abril, no Rio de Janeiro, e o V Seminário de Estudos da Informação, dias 14 e 15 de junho, na Universidade Federal Fluminense, em Niterói.

O HDRio 2018, que tem como um dos parceiros o Laboratório em Rede de Humanidades Digitais (LaRHud), coordenado pelo professor Ricardo Pimenta, reunirá pesquisadores das mais diversas áreas do conhecimento para discutir o impacto das tecnologias da informação e comunicação, criação de metodologias e ferramentas presentes na vida cotidiana das sociedades locais e globais. O período de submissão de trabalho já se encerrou, mas quem quiser comparecer como ouvinte, a oportunidade segue até dia 08 de abril e custa R$ 140. Fique atent@: a inscrição durante a abertura do evento será permitida, porém com um acréscimo de 30% do valor original.

Já o V Seminário de Estudos da Informação terá como tema central “Produção, Tratamento, Disseminação e Uso de Recursos Informacionais Heterogêneos: diálogos interdisciplinares”. Na edição deste ano, a organização inovou com a participação de estudantes de pós-graduação. Mestrandos (que tenham realizado a qualificação) e doutorandos em Ciência da Informação podem enviar relatos de pesquisa em andamento que se relacionem com a temática principal  até o dia 20 de abril. Todas as normas e valores de inscrição estão descritos neste link.

Em tempo:  Giselle Beiguelman, pesquisadora e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, é a nova colunista da Rádio USP. A primeira transmissão do Ouvir Imagens aconteceu dia 5 de março e discutiu a obra da artista norte-americana Heather Dewey-Hagborg. Para nós, que estudamos principalmente a relação entre informação e memória, a edição do dia 12 de março foi mais do que especial! Beiguelman abordou sobre a obsolescência das plataformas tecnológicas e o risco para a preservação digital. Na ocasião, foi debatido sobre os programas usados na década de 1990 e que saíram de linha, impedindo a recuperação de projetos de produção artísticas como o net.art.  Quem quiser saber mais e acompanhar a coluna, Giselle Beiguelman está no ar sempre às segundas-feiras, a partir das 8h.

 

Da corola da grande flor a mulher emerge, os braços erguidos: mulheres, arte e saúde mental

Michelle Louise GuimarãesMuseóloga; doutoranda em Ciência da Informação IBICIT-UFRJ 

Pedro AmorimMestrando em direito FND-UFRJ; especialista em Fotografia e Imagem IUPERJ-UCAM 

A história da memória das mulheres é permeada por constantes intervenções externas a suas protagonistas. Mulheres vinculadas a um sofrimento psíquico, em especial, estavam mais sujeitas a estas formas de violência que buscavam anular ou manipular tais vivências na busca pelo controle social deste grupo. Se a relação da psiquiatria moderna com os pacientes, principalmente as mulheres, é de silenciamento, a produção artística contorna as opressões positivadas em prol de uma maior liberdade de expressão das subjetividades e memórias de seus produtores. A psiquiatra alagoana Nise da Silveira conseguiu, a partir de seus trabalhos com pacientes do Centro Psiquiátrico Pedro II (atual Instituto Municipal Nise da Silveira), no Rio de Janeiro, encontrar um modo de juntar esses dois caminhos: um tratamento humanizado em saúde mental e as atividades expressivas, como eram denominadas por Nise, as pinturas, esculturas e outros trabalhos manuais realizados na Sessão Terapêutica Ocupacional da instituição.   

Foi através da pintura que Adelina Gomes conseguiu, por exemplo, externalizar suas expectativas nas obras e despotencializar seus traumas. Sua produção carrega elementos femininos reprimidos violentamente pela família e pelo saber psiquiátrico tradicional. A experiência de Nise materializada nas obras de Adelina são uma prova da força que as expressões imagéticas têm quando originarias da própria mulher, fissurando o contexto hegemônico para produzir e transformar sua realidade. 

Ao analisar as práticas da memória femininaMichelle Perrot (1989) destaca o silêncio dos arquivos em referência à história das mulheres, em particular, entre o século XIX e meados do século XX. Segundo essa historiadora, a divisão entre espaço público e privado espelha e constitui as relações de gênero. Neste mesmo cenário, os procedimentos de registro de informações valorizam o domínio público em detrimento do privado. As mulheres da alta burguesia, quando inseridas neste espaço comum, desfilavam com ornamentos, vestimentas e gestos modelados na função de demonstrar o poder de seus respectivos maridos. Assim, nota-se que a observação sobre o feminino “se detém pouco sobre as mulheres singulares, desprovidas de existência, e mais sobre “a mulher”, entidade coletiva e abstrata à qual se atribuem as características habituais” (PERROT, 1989, p. 10). A autora salienta ainda que, no caso das mulheres pobres, suas vozes eram raramente ouvidas ou consideradas, tornando-se relevantes apenas quando “seus murmúrios inquietam no caso do pão caro, quando provocam algazarras contra os comerciantes ou contra os proprietários, quando ameaçam subverter com sua violência um cortejo de grevistas” (PERROT, 1989, p. 10). 

Enfatizando a divisão do espaço público e privado ainda no século XIX, Vânia Carneiro de Carvalho (2008) distingue os repertórios masculinos e femininos em ações centrípetas e ações centrífugas. A ação centrípeta relacionada à conexão entre o homem e os artefatos ocorre de forma hierárquica, “no qual os atributos dos objetos nunca sobrepujam o homem, ao contrário, eles servem para desenhar a personalidade de gênero de maneira individualizada.” (CARVALHO, 2008, p. 43). Em sentido oposto, na esfera doméstica, o feminino mescla-se com cada objeto presente naquele espaço, de modo inespecífico e difuso: “Trata-se de uma direção centrífuga da ação feminina. Essa ação irradiadora, que cobre cada objeto da casa com um véu de feminilidade, atinge a engrenagem doméstica, inclusive seus empregados, seus ritos, sociais, familiares e o seu próprio corpo” (CARVALHO, 2008, p. 68).  

Esse vínculo entre os objetos domésticos e as mulheres também é ressaltado por Perrot (1989). Segundo a autora, algumas mulheres foram responsáveis pela preservação dos arquivos privados que narram a história das famílias: correspondências, fotografias, dentre outros, eram reunidas por essas mulheres. Porém, os textos escritos em seus diários, por exemplo, eram destruídos por elas mesmas. Perrot compreende que a destruição destas memórias afetivas por suas respectivas produtoras, demonstra o temor em ter suas intimidades expostas aos olhos da sociedade, pois os conteúdos internos femininos eram vistos como possíveis desestabilizadores da ordem social.   

Esse ato de autodestruição é uma forma de adesão ao silêncio que a sociedade impõe às mulheres, feita, como escreve Jules Simon, “para ocultar suas vidas”; um consentimento da negação de si que está no âmago das educações femininas, sejam elas religiosas ou laicas, e que a escrita – assim como a leitura contradiziam. Queimar seus papéis é uma purificação pelo fogo dessa atenção consigo própria no limiar do sacrilégio. Esse gigantesco auto de fé foi o destino que se deu à maioria dos escritos privados de mulheres, ao mesmo tempo que aos arquivos familiares preservados pela longevidade dessas mulheres. A morte súbita, os armários esquecidos pelas grandes casas provinciais são os únicos empecilhos desse incêndio. A imagem das mulheres ateando fogo aos seus cadernos íntimos ou a suas cartas de amor no final de suas vidas sugere a dificuldade feminina de existir de outro modo que no instante fugaz da palavra e, por consequência, a dificuldade de recuperar uma memória que não deixou rastros (PERROT, 1989, p. 12-13) 

Com o amanhecer da psiquiatria moderna, também no século XIX, outro papel feminino começa a ser construído: fortalece-se o conceito de histeria. O saber psiquiátrico divisa formas de controle social, trazendo uma nova abordagem às subjetividades das mulheres, anteriormente controladas no âmbito privado. Se a queima dos documentos representa uma implosão das vontades femininas que cedem à pressão patriarcal, a explosão da subjetividade dessas mulheres começa a ser observada e catalogada por Charcot na clínica Salpêtrière. Através da fotografia, o famoso médico tenta consolidar o saber psiquiátrico moderno ao manipular essa perfomatividade das supostas mulheres histéricas. A análise charcotiana é, assim, envolta em um status de objetividade que a legitima (DIDI-HUBERMAN, 2015). Esse cenário inaugura a resiliente imagética acerca da mulher histérica, consolidando um imaginário social a imprimir, século a século, a noção de irracionalidade ainda atrelada ao feminino. 

Nota-se, portanto, um percurso de produção/destruição das memórias das mulheres no século XIX: entre o sufocamento de suas vivências, em cartas de amor queimadas e diários rasgados, ao controle de seus corpos em fotos realizadas por homens e para homens que estudavam (e produziam) o fenômeno da histeria (DIDI-HUBERMAN, 2015). Contudo, mesmo o método científico de Charcot e de seus seguidores não conseguia alcançar, através da produção imagética sobre as mulheres – suas pacientes –, o sentido de suas experiências singulares. Como Margaret Atwood (2008) conta em Vulgo Grace ao narrar a história verídica de Grace Marks, uma mulher suspeita de participar do assassinato de duas pessoas no Canadá do século XIX, a produção tão restrita e reducionista de saberes acerca do universo feminino a partir da ótica masculina (mulheres ora ingênuas e inferiores mentalmente, ora perigosas associadas ao demoníaco e incontrolável das paixões humanas), impede o entendimento real das intenções e experiências de sua personagem.  

Ainda sobre Charcot e seus registros, é de se esperar, inclusive, que aquelas fotos do álbum original não tenham logrado representar figuras absolutamente passivas em seus supostos sofrimentos mentais. Ao contrário, se Charcot as fotografou, fotografou-as também em sua perfomatividade, sugerindo aqui a velha questão que acompanha antropologia visual: se somos nós, produtores de imagem, que dizemos o outro ou se é o outro que diz a nós (GILI, 2005). 

A produção imagética exógena à mulher sempre competiu com as próprias criações de artistas mulheres, como Artemisia Gentileschi e Frida Kahlo. As obras de Kahlo e Gentileschi destacam seus traumas, conflitos internos e desejos. Podemos compreender a arte tanto como expressão da realidade de tais mulheres, quanto potência de transformação deste real. No caso brasileiro, a história de Adelina Gomes, paciente internada no Centro Psiquiátrico Pedro II, em 17 de março de 1937, representa essa força transformadora dos conteúdos internos tão reprimidos pela sociedade patriarcal. 

Nise da Silveira (2015) dedica um capítulo de seu livro Imagens do Inconsciente à história de Adelina. Filha de camponeses, nasceu em condições precárias de vida, porém conseguiu fazer o curso primário e um curso profissional, onde aprendeu trabalhos manuais. Mulher negra, era conhecida por sua timidez e introversão, sendo bastante obediente aos pais, em especial à mãe que tinha um forte controle sobre sua vida. Aos dezoito anos, apaixona-se por um homem. Sua mãe não aceita esse possível relacionamento e Adelina o rejeita, reprimindo sua paixão. Inicialmente, a vida aparenta seguir tranquila, até que Adelina começa a agir de modo agressivo e sombrio, estrangulando, por fim, uma gata estimada por ela e sua família, momento em que é internada. 

Segundo a psiquiatra alagoana, em seus primeiros anos internada no hospital do Engenho de Dentro, Adelina é avessa a qualquer forma de contato. Os médicos a diagnosticam com esquizofrenia. Em 1947, Adelina começa a frequentar o ateliê de pintura da Seção Terapêutica Ocupacional. Nise atenta que a paciente não teve dificuldades em iniciar-se na pintura.  

A primeira temática de Adelina foi a representação de gatos: inicialmente uma gata de tetas volumosas e uma gata bailarina, figura com aspecto humano que parece dançar. Nise entende que essa é a dupla expressão de vida instintiva feminina, de modo que “a primeira é uma gata mãe e a segunda é um animal livre de exprimir em movimentos de dança os instintos de sua natureza” (SILVEIRA, 2015, p. 223).  

De certa forma, Adelina não consegue se desvincular da mãe, daí a repetição do tema das gatas, que para Nise é o símbolo arquetípico do feminino. Então, neste momento, introverte-se: fugindo para o reino maternal, começa a produzir imagens de grandes e terríveis mães, com chifres e capuzes. A partir da atividade de construção dessas imagens matriarcais, Adelina começa a despontencializá-las paulatinamente, produzindo estátuas de deusas-mães “que parecem querer abrir o peito com as mãos” (SILVEIRA, 2015, p. 227).  A paciente utiliza o contato manual que a modelação oferece para tornar intimo o encontro com a figura materna, fabricando assim o objeto físico a ponto de ressignificar a imagem-mãe, enfraquecendo seu controle ao mesmo tempo que amorosamente se aproxima da figura de coração aberto.  

Nise da Silveira_Adelina

Figura 1: Adelina Gomes. 04/11/1959. Óleo sobre papel.

Com as esculturas nota-se a formação da característica principal do trabalho de Adelina:  as metamorfoses. Desde mulheres com cabeças de cachorros a se transformarem em cães com cabeças de mulheres à fusão das figuras felina e feminina no mesmo corpo. Nise, no entanto, observa que é com as transfigurações em flor que um paralelo entre a história da paciente e o mito grego de Dafne é traçado. Dafne, fugindo de Apolo, deus grego apaixonado por ela, pede ajuda a sua mãe, Gaia, que a metamorfoseia em um loureiro. “O mito de Dafne exemplifica a condição da filha que se identifica tão estreitamente com a mãe ao ponto dos próprios instintos não lograrem a desenvolver-se” (SILVEIRA, 2015, 220)

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Figura 2: Adelina Gomes. 18/01/1960. Óleo sobre papel.

Ao longo da produção das obras, Adelina consegue externalizar sua libido, antes controlada pela figura das mães: a partir de dado momento se desvincula das imagens de flores e compõe em seus quadros figuras masculinas. De acordo com Nise (2015), Adelina tem um interesse amoroso por um paciente da instituição psiquiátrica. Neste período, pinta inúmeros quadros que tratam de sua dificuldade de comunicação com o outro. Exemplos nítidos são as cadeiras vazias ao lado da figura masculina de interesse. Em algumas pinturas, Adelina se transfigura novamente em flor, retomando o tema de Dafne. Em meio a essas oscilações, Adelina pinta, em 9 de junho de 1975, uma noiva juntamente ao seu noivo, semelhante às fotografias de álbum de família. A artista faleceria quase uma década depois, em 1984. 

As intenções de Nise não se alinhavam àquelas da psiquiatria tradicional. Sua busca não era por apagar a memória dos pacientes através de métodos violentos, mas trazer suas lembranças à tona, enfraquecendo sua influência negativa sobre a pessoa. A transformação das experiências de vida através da terapêutica ocupacional dialoga imensamente com as formas de produção e expressão mnemônica por artistas mulheres. Se antes, no entanto, a arte se opunha à psiquiatria em sua cientificidade moderna, agora encontra, no exemplo de Adelina Gomes, uma forma de legitimar-se como terapia.  

Através das pinturas e esculturas, Adelina revela seus traumas intimamente ligados à opressão vivida em sua juventude. Da mesma forma, mulheres como Frida Kahlo utilizaram-se da arte como forma de fissurar o silenciamento a que estavam sujeitas em busca da materialização de sua subjetividade, conferindo às suas memórias a voz que lhes era tirada à força. 

 

 

Referências:  

ATWOOD, Margareth. Vulgo Grace. São Paulo: Rocco, 2008. 

CARVALHO, Vânia Carneiro de. Gênero e artefato: o sistema doméstico na perspectiva da cultura material. São Paulo, 1870-1920. São Paulo: Edusp, 2008. 

DIDI-HUBERMAN, Georges. A invenção da histeria: Charcot e a iconografia fotográfica da Salpêtrière. Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: MAR/Contraponto, 2015. 

GILI, Marta. Graciela IturbideMadrid: tf.editores, 2005. 

PERROT, Michelle. Práticas da Memória Feminina. In: Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 8, n. 18, ago/set.1989, p.15 

SILVEIRA, Nise da. Imagens do Inconsciente. Rio de Janeiro: Vozes, 2015. 

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