Katherine Johnson, a matemática da NASA

 

Franciéle Carneiro Garcês da Silva | bibliotecária e mestranda em Ciência da Informação no IBICT/UFRJ

Katherine Coleman Goble Johnson nasceu em agosto de 1918, em White Suphur Springs, nos Estados Unidos e é uma matemática e cientista espacial afro-americana que colaborou com a National Aeronautics and Space Administration (NASA) ao calcular trajetórias de voo espacial para projetos críticos, tais como da viagem da Apollo 11 à Lua em 1969.

A cientista Katherine Johnson, em 1966. Fonte: Domínio Público.

A cientista Katherine Johnson, em 1966. Fonte: Domínio Público.

 

Sua afinidade com os números aconteceu desde a infância, quando, por conta de seu rápido desenvolvimento passou à frente dos colegas de classe em várias séries. Entretanto, não pôde frequentar a escola depois do 8º ano em sua cidade natal por ser uma mulher negra que vivia no período de segregação racial nos Estados Unidos, onde as possibilidades para jovens negras eram muito limitadas. Terminou a escola secundária no West Virginia State College aos 14 anos e quando tinha 18 anos começou a ter mentoria do professor de Matemática, W. W. Schieffelin Claytor, o terceiro afro-americano a obter um Ph.D. em Matemática. Em 1937, Katherine se graduou com honrarias em Matemática e Francês e foi contratada para trabalhar como professora em uma escola pública para negros na Virgínia.

No ano de 1939, Katherine foi escolhida, juntamente com outros dois estudantes negros, para ingressar em uma escola de pós-graduação da Virgínia Ocidental. O presidente da West Virginia State College, Dr. John W. Davis foi quem escolheu os primeiros alunos a ganharem vagas na West Virginia University, considerada a principal universidade do estado. Com esse convite, Katherine se matriculou no Programa de Pós-Graduação em Matemática e deixou a escola em que trabalhava. Posteriormente, precisou trancar sua matrícula para poder dedicar-se à família.

Em 1952, após suas filhas estarem maiores, Katherine retornou ao trabalho. Desta vez, a matemática foi para a Seção de Computação da Área Oeste, do Comitê Consultivo Nacional para Aeronáutica (NACA), atual NASA, para trabalhar como “computador”. Antes dos computadores eletrônicos, o termo “computador” se destinava às pessoas em vez de máquinas, pois realizavam cálculos matemáticos complexos à mão, individualmente ou em grupo, sendo chamados de “escritórios de computação” ou “pools de computadores”. Esta profissão teve origem no século XVIII em áreas onde enormes quantidades de dados precisavam ser processadas (e.g. astronomia, ciências sociais e balística). O crescimento dos “pools de computadores” aumentou no período entre guerras nos Estados Unidos como preparação para a Segunda Guerra Mundial e levou à uma grande escalada científica e pesquisa militar.

O Comitê Consultivo Nacional de Aeronáutica (NACA) foi formado em 1915 durante a Primeira Guerra Mundial, e possuía o objetivo de coordenar pesquisas de cunho industrial, acadêmico e governamental. Langley Memorial Aeronautical Laboratory, o principal laboratório de pesquisa da NACA, começou a contratar “computadores” na década de 1930, mas os “computadores” deste período eram mulheres brancas que tinham graus em matemática. Devido à segregação racial no governo, nas universidades e na sociedade em geral, eram raras as oportunidades para mulheres afro-americanas obterem emprego nas indústrias federais de defesa ou buscar as ciências fora das Faculdades e Universidades Historicamente Negras (Historically Black Colleges and Universities). Até o ano de 1958, o local de trabalho de Katherine era segregado. Assim, elas e outras mulheres afro-americanas “computadores” trabalhavam, comiam e usavam banheiros separados dos trabalhadores brancos.

Após mudar-se com sua família, Katherine começou a trabalhar no NACA Langley, em junho de 1953. Posteriormente, foi transferida por Dorothy Vaughan para um projeto na Divisão de Cargas de Manobra, na Divisão de Pesquisa Voo e passou a ser uma contratada permanente.

De 1953 a 1956, Katherine analisou dados de testes de voo e trabalhou na investigação de uma queda de avião causada pela turbulência da esteira. Nesse período ainda não existiam computadores eletrônicos e sob título de “computador”, Katherine calculava trajetórias, janelas de lançamento e caminhos de retorno de emergência para voos espaciais, entre estes, realizou a análise de trajetória para a missão Freedom 7 de Alan Shepard, o primeiro americano no espaço.

Foi a partir do lançamento do satélite soviético Sputnik no ano de 1957 que a vida de Katherine Johnson mudou. Em 1957, Katherine elaborou alguns dos cálculos apresentados no documento de 1958, Notes on Space Technology, um compêndio de uma série de palestras de 1958 ministradas por engenheiros da Divisão de Pesquisa de Voo e da Divisão de Pesquisa de Aeronaves Sem Pilotos. Engenheiros desses grupos formaram o núcleo do Grupo de Tarefas Espaciais, a primeira incursão oficial do NACA em viagens espaciais. Katherine trabalhou com muitos deles desde que foi para Langley, inclusive, quando o NACA se tornou a NASA.

Em 1960, Katherine escreveu em coautoria com o engenheiro Ted Skopinski, o Relatório Determination of Azimuth Angle at Burnout for Placing a Satellite Over a Selected Earth Position, no qual são apresentadas equações que descrevem um voo espacial orbital no qual a posição de aterrissagem da espaçonave é especificada. Foi a primeira vez que uma mulher da Divisão de Pesquisa de Voo recebeu crédito como autora de um relatório de pesquisa.

Quando os computadores eletrônicos entraram na NASA, Katherine combinou seu talento para a matemática com conhecimentos de informática eletrônica para garantir o sucesso das missões espaciais Apollo e os primeiros voos do programa de ônibus espaciais. Alguns dos astronautas confiaram mais nos cálculos de Katherine do que nos primeiros computadores eletrônicos, pedindo-lhe que checasse os cálculos feitos pelos computadores eletrônicos.

Em 1962, quando a NASA se preparou para a missão orbital de John Glenn, Katherine Johnson foi chamada para fazer o trabalho pelo qual ela se tornaria mais conhecida. A complexidade do voo orbital exigiu a construção de uma rede mundial de comunicações, ligando estações de rastreamento em todo o mundo a computadores IBM em Washington, Cabo Canaveral e Bermudas. Os computadores foram programados com as equações orbitais que controlam a trajetória da cápsula na missão de John Glenn, Friendship 7. No entanto, os astronautas tinham receio de colocar suas vidas ao cuidado das máquinas de calcular eletrônicas, que eram propensos a apagões. Como parte da lista de verificações prévias, Glenn pediu aos engenheiros para “fazer a garota” – Katherine Johnson – executar os mesmos números através das mesmas equações que haviam sido programadas no computador, mas à mão, em sua máquina de calcular mecânica de mesa. “Se ela diz que é boa”, Katherine Johnson lembra que o astronauta disse “então, estou pronto para ir”. O voo de Glenn foi um sucesso e marcou um ponto de virada na competição entre os Estados Unidos e a União Soviética no espaço.

Autora e coautora de 26 relatórios da NASA e com papel fundamental na sincronização do Lunar Lander, do Projeto Apollo, Katherine Johnson aposentou-se após 33 anos de NASA. Em 2015, o presidente Obama concedeu à cientista de 97 anos, a maior honraria civil dos Estados Unidos, a Medalha Presidencial da Liberdade.

Katherine condecorada com a Medalha Presidencial da Liberdade, em 2015

Katherine Johnson condecorada com a Medalha Presidencial da Liberdade, em 2015. Fonte: Domínio Público.

REFERÊNCIAS

A HISTÓRIA DAS “Estrelas Além do Tempo” Reais da NASA. Scientific American Brasil. Disponível em: <http://www2.uol.com.br/sciam/noticias/a_historia_das__-estrelas_alem_do_tempo-_reais_da_nasa.html>. Acesso em: 11 abr. 2018.

A LIFE IN SCIENCE. Katherine Johnson. Catalyst, February 2017. Disponível em: <https://www.stem.org.uk/system/files/elibrary-resources/2017/03/A%20life%20in%20 science%20Katherine%20Johnson.pdf >. Acesso em: 11 abr. 2018.

CENTER FOR HISTORY OF PHYSICS AT AIP. Lesson Plan: “When Computers Wore Skirts:” Katherine Johnson, Christine Darden, and the “West Computers”. 2012. Disponível em: <https://www.aip.org/sites/default/files/history/files/LessonPlan_JohnsonDardenandWestComputers.pdf>. Acesso em: 11 abr. 2018.

NATIONAL AERONAUTICS and Space Administration. Katherine G. Johnson. Marc. 1969. Disponível em: <https://crgis.ndc.nasa.gov/crgis/images/5/5e/KatherineJohnson.pdf>. Aceso em: 11 mar. 2018.

SHETTERLY, Margot Lee. Katherine Johnson Biography. NASA: National Aeronautics and Space Administration. Aug. 3, 2017. Disponível em: <https://www.nasa.gov/content/katherine-johnson-biography>. Acesso em: 10 abr. 2018.

SKOPINSKI, Ted.; JOHNSON, Katherine G. Determination of Azimuth Angle at Burnout for Placing a Satellite Over a Selected Earth Position. NASA: National Aeronautics and Space Administration. Washington, September 1960. Disponível em: <https://ntrs.nasa.gov/archive/nasa/casi.ntrs.nasa.gov/19980227091.pdf>. Acesso em: 11 abr. 2018.

Nem cidade, nem sociedade da informação: não-ser político e científico na urbe capitalista

 

Monique Figueira | bacharela em comunicação social e doutoranda em Ciência da Informação no IBICT/UFRJ

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo…
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura…
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte,
empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos
porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres
porque a nossa única riqueza é ver.
(Alberto Caeiro*)

 

Mais que tempos de crise, vivemos em um sistema político e econômico que deles se retroalimenta. Nossos maiores pesadelos ontológicos voltam em ciclos porque a história parece pouco conseguir nos ensinar. Só aprendemos na marra, ou seja, na práxis. Hoje muito se fala de pós-verdades e fake news, mas são apenas novas nomenclaturas para problemas antigos da manipulação ideológica. Essa conjuntura se sustenta pois alienação não remete a um fenômeno passivo, mas que também ativamente produz significações.

As narrativas dominantes emergem dos maiores produtores de interpretações: a sociedade civil, as instituições políticas e a ciência. Apesar do mútuo condicionamento, em geral conferimos ao âmbito civil o caos do senso comum, à política uma expectativa de pureza anticorrupção e taxamos ingenuamente a ciência como esfera que paira acima das anteriores, mais neutra e racional. Porém, o que se discrimina na vida prática cotidiana inevitavelmente afeta as posturas do poder público e acadêmico.

Para a filósofa Agnes Heller, o nível de alienação social pode ser medido pela distância entre a consciência média da população em relação à possibilidade máxima de conhecimento desenvolvido à época (HELLER, 2008, p. 58). Por essa concepção, somos mais alienados que comunidades primitivas, já que nelas há igualdade e entendimento integral sobre as narrativas disponíveis. Não à toa, sociedades indígenas e tribais, por exemplo, não possuem processos de segregação como populações carcerárias ou em situação de rua – segmento social que permeia o viés aqui tratado, objeto de minha dissertação de mestrado defendida em 2018.

Contudo, em vez de estudo de caso pontual que reflete um país classista, racista, machista e homofóbico, a ocorrência de populações em situação de rua diz respeito ao modus operandi da globalização capitalista. A luta dos sem-teto ecoa em todo o mundo, inclusive em nações tradicionalmente conhecidas por políticas robustas de bem-estar social. A austeridade neoliberal das últimas décadas tem levado a índices recordes de cidadãos em situação de rua em todos os países da União Europeia, com exceção da Finlândia. Questões que soam como singularidades brasileiras na verdade dialogam com particularidades internacionais, compondo a totalidade capitalista, em constante universalização.

No caso latino-americano, o subdesenvolvimento se manifesta com especial vigor na ausência de informações sobre a realidade (PINTO, 1973, p. 94). No Brasil o censo federal, principal método de coleta de dados oficiais, é realizado desde 1872, porém a partir do escopo domiciliar. O critério da casa como elegibilidade para cidadania explicita a hegemonia da propriedade privada. Reverte-se a lógica: um cidadão sem endereço fixo deve ser ignorado ou priorizado nas políticas públicas? A efetividade política decorre da amplitude do conhecimento disponível sobre um público-alvo. Sem compreender seus desafios e códigos específicos, a atuação estatal está fadada ao fracasso da generalização distanciada, que com frequência se omite em intervir. Quando não, ora leva ao assistencialismo, ora à repressão.

Populações móveis** são historicamente desconsideradas nos estudos oficiais brasileiros, lacuna no regime de informação federal que reverbera nos estados e municípios, agravando a dimensão do problema. Entretanto, a ideia de país representa mera abstração: é a cidade o lócus real dos serviços públicos e da atuação civil. Apesar do Brasil já ser 84% urbano, o IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, órgão mais competente do país para estudos do território e sua população, demonstra distanciamento desse segmento social. A Ciência da Informação tampouco dele se ocupa.

Somente em 2008 foi realizado o único mapeamento nacional dos cidadãos em situação de rua. Dado que há maior incidência em grandes aglomerações urbanas, a pesquisa priorizou cidades com mais de 300 mil habitantes, no fim abrangendo apenas 71 dos 5.570 municípios do país. O levantamento constatou que cerca de 70% desses cidadãos trabalha (BRASIL, 2008, p. 10), compondo a camada mais vulnerabilizada da classe trabalhadora, pois subempregada na economia informal, 98% sem carteira assinada. Assim, torna-se imprescindível desmistificar a noção de que esses cidadãos seriam “vagabundos”, “mendigos” ou “pedintes”*** .

Devido ao desconhecimento generalizado vemos em São Paulo**** a gestão municipal de João Doria tratando sob o mesmo rótulo ~ os cracudos ~ identidades díspares como a população em situação de rua, dependentes químicos e cidadãos com transtornos psíquicos. Enquanto isso, há muito a experiência especializada com cada um desses grupos viabiliza reconhecer suas características e a necessidade de abordagens próprias para o serviço social adequado.

Vale destacar que o termo pejorativo “Cracolândia” não trata de um lugar específico, mas um ethos de cidadania emblemático da segregação capitalista. Típico do senso comum, confunde-se questão de assistência social e saúde pública com caso de polícia, mascarando em seus sintomas a causa real do problema. Não há epidemia de crack, mas epidemia de miséria sistêmica. O teatro midiatizado das megaoperações policiais não prende grandes traficantes mas, no máximo, dependentes químicos que realizam transações irrisórias no varejo para sustentar o vício. Os verdadeiros traficantes não ficam expostos em guetos, eles transitam livremente em helicópteros.***** Não são combatidos pelo Estado, pois fazem parte do Estado.

Tal deslocamento decorre da negligência às evidências empíricas. Rapidamente passamos do (não) objeto científico para a política, já que a realidade não é cartesiana. Nenhuma análise que tente ser coerente pode separar os assuntos em caixinhas estanques, como pregado pelos antolhos liberais. “Não-ser” remete à inexistência de um conceito ou pauta, e o que nem se nomeia não tem como receber a devida atenção. Eis que a população em situação de rua se encontra no limbo entre as políticas identitárias e a luta de classes.

Muitos consideram as sociedades contemporâneas como da “informação” ou do “conhecimento” por carregarmos no bolso um mundinho filtrado que em nada tem revolucionado (no sentido político, estrutural) as históricas desigualdades socioeconômicas. Atualmente se tornou emblemática a cena de um transeunte fixado na tela do celular enquanto ignora questões públicas graves, já que as mazelas da vida na rua manifestam o sistema calcado na violação de direitos civis básicos. Para a Ciência da Informação e áreas afins, esta discussão busca equilibrar a fé desmedida no advento técnico. As tecnologias de comunicação e informação de certo ampliam o potencial de intercâmbio inerente às sociedades mas, paradoxalmente, mantêm intacto o dilema da desconexão social. Enquanto a virtualidade dos novos fluxos informacionais desfrutam de caráter abstrato, desterritorializado, a segregação socioeconômica dói na carne, é material e tangível.

Problemas comunitários evidentes são naturalizados, porque no capitalismo nossas prioridades são privadas. Ainda assim, a sociedade ocidental recebe o rótulo de “conectada”, porém o contexto do sujeito – logo, também do Estado ou da ciência – define o que será tomado como de fato informação ou mais um ruído em ambientes saturados. Se as grandes cidades expõem como a desigualdade opera por meios plurais e interdisciplinares, a Ciência da Informação também tem a contribuir ao enfrentar os dilemas urbanos que permeiam o país – e conhecer exaustivamente o território e sua população representa um dos mais importantes índices de progresso social.

 

NOTAS:


* Heteronômio do poeta Fernando Pessoa.

** Outros grupos sociais também impõem entraves metodológicos aos institutos de pesquisa quanto à configuração de suas bases espaciais e zonas de mobilidade, como comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas.

*** O termo população em situação de rua denota o caráter coletivo e transitório desse fenômeno, substituindo nomenclaturas correntes que individualizam e congelam o estigma. “Morador de rua” é tido como inapropriado pois o estado de exposição ao relento não cumpre necessidades básicas da dignidade humana para que seja considerado moradia. Já “mendigo” vem do latim mendicus, derivado de mendum, defeito físico – denominação historicamente ligada aos inválidos que dependiam de caridade para sobrevivência por não poderem trabalhar. Disponível em https://www.dicionarioetimologico.com.br/mendigo/.

**** A criminalização da mendicância está enraizada país afora. Desde 2015 no Rio de Janeiro, a Fecomércio, Federação do Comércio do Estado, financia a operação policial Segurança Presente, que reprime, em sua maioria, cidadãos negros ou em situação de rua. Os bairros da Lapa, Aterro, Lagoa e Méier teriam sido selecionados com base em estudo de segurança pública, indicando as zonas mais necessitadas de atenção governamental, apesar de não apresentarem os maiores índices de violência. O então secretário de governo admitiu que a Fecomércio selecionou os locais: “Como em qualquer lugar do mundo, quem financia escolhe”. Essa é a primeira vez na cidade que um projeto de segurança é totalmente financiado pela iniciativa privada. Disponível em http://apublica.org/2016/02/operacao-policial-financiada-por-empresarios-cariocas-mira-moradoresde-rua/. Já em Santa Catarina, a Câmara de Vereadores de Balneário Camboriú aprovou no fim de 2017 um projeto de lei do PMDB que estabelece multa de até R$ 2,6 mil para “pedintes”, ambulantes e artistas de rua. Outra clara tentativa de higienizar áreas turísticas, a proposta afirma que essas atividades representam “perigo ou obstáculo para o trânsito”. Disponível em https://www.nsctotal. com.br/colunistas/dagmara-spautz/vereadores-de-balneario-camboriu-aprovam-multa-para-pedintes-que. O cenário nacional não é diferente de outros países. Nos EUA, a cidade de Berkeley, considerada progressista, vem votando com apoio de empresários normativas apelidadas de “lei anti-pobre”. As medidas visam impedir cidadãos de sentar ou deitar nas ruas do centro e delimitam quanto espaço de calçada pode ser ocupado com pertences. Disponível em https://www.theguardian.com/us-news/2017/mar/15/berkeley-california- homeless-identity-crisis.

***** Em 2013 um helicóptero da família Perrella, aliada ao senador Aécio Neves, do PSDB, foi apreendido pela polícia com meia tonelada de cocaína. O piloto, o copiloto e dois interceptadores da droga chegaram a ser presos em flagrante, mas foram liberados (hoje o piloto exerce a profissão normalmente e é proprietário de três helicópteros). O senador Zezé Perrella e seu filho, o ex-deputado estadual Gustavo Perrella, não foram indiciados e o helicóptero ainda lhes foi devolvido, em contrariedade à Lei Antidrogas (n° 11.343/2006, art. 62: veículos utilizados para a prática do crime ficariam sob custódia da autoridade policial). Em 2016 Zezé Perrella votou a favor do impeachment e da perda de direitos políticos da presidenta Dilma Rousseff e, em 2017, contra o afastamento de Aécio Neves, acusado de corrupção, suborno e obstrução da justiça. O Senado revogou a decisão da Suprema Corte de afastar Neves do cargo.

 

REFERÊNCIAS 

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Pesquisa Nacional sobre a População em Situação de Rua. Brasília: Secretaria de Avaliação e Gestão da Informação, 2008.  

 ______. Lei no 11.343, de 2006. Institui o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas; prescreve medidas para prevenção do uso indevido e reinserção social de dependentes; estabelece normas para repressão ao tráfico e define crimes.  

 HELLER, Agnes. O cotidiano e a história. São Paulo: Paz e Terra, 2008. 

 PINTO, Álvaro Vieira. El pensamiento crítico em demografia. Santiago: Centro Latino-americano de Demografia, 1973.

I Seminário de Extensão do Laboratório CDOC-ARREMOS de 2018 ocorrerá na UNIRIO

Ocorrerá no dia 11/04/2018, às 16h, na UNIRIO, a primeira edição de 2018 dos Seminários de Extensão promovidos pelo Laboratório de Estudos sobre Cultura Documental, Religião e Movimentos Sociais (CDOC-ARREMOS).

Nesta edição o tema será “A importância da preservação e acesso aos acervos das Polícias Políticas”. Seguem abaixo mais informações sobre o evento, o formulário de inscrição e a arte de divulgação.

Palestrantes:
Margareth Fontaine (Divisão de Conservação – APERJ)
Clarissa Ramos Gomes (Dpto. de Gestão de Acervo – APERJ)

Local: Auditório do Programa de Pós-Graduação em Informática, no CCET, UNIRIO.

Endereço: Av. Pasteur, 458 – Urca, Rio de Janeiro – RJ, 22290-250

Para garantir sua inscrição e certificado, preencha o formulário através do link: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSfNpSGD1rAi7SYbsNf6KRYp2ZdzqzkGL0XnZQzSULghpTFDiA/viewform

 

imagem divulgação 1 seminario CDOC-ARREMOS

Leolinda: pioneira inspiração

Marcia Quintslr | matemática, mestranda no IBICT/UFRJ e tecnologista do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística*

Linguagem e História: opressão e resistência

O mês de março é dedicado internacionalmente à defesa dos direitos das mulheres. Lembrar Leolinda Figueiredo Daltro, brasileira, mulher, mãe, educadora e ativista das causas indígena e feminista é um modo de fazer justiça à sua precursora atuação desde o século XIX, tendo mantido suas convicções até o fim de seus dias, em 1935.

A histórica e a dimensão sociopolítica da Organização do Conhecimento (OC) constituem-se em campos do saber que atendem à desnaturalização de padrões canônicos que induzem preconceitos e discriminação, acarretando violências simbólicas e físicas contra diferentes grupos oprimidos, o que inclui as mulheres.

A vida de Leolinda é observada à luz da violência simbólica exercida através da linguagem, recorrentemente utilizada como instrumento de opressão das lutas femininas. Uma incursão histórica é desenvolvida com base em estudo que focaliza duas emblemáticas mulheres – Hipátia e Joana D’Arc, como primeiro e segundo pontos na “linha do tempo” da evolução histórica aqui observada. Leolinda corresponde ao terceiro.

O quarto ponto refere-se aos dias atuais e corresponderia a Judith Butler apenas. No entanto, uma atrocidade, com forte conotação e impacto político, atravessou o processo de elaboração deste texto. Assim, Marielle Franco e Anderson Gomes constituem necessárias presenças à linha do tempo que orienta a argumentação aqui apresentada.

Classificações, linguagem e padrões sociais historicamente determinados

No portal da International Society of Knowledge Organization, ISKO, está estabelecido que OC compreende, entre outros aspectos, a história, conceitos e desafios práticos do ato de classificar, abarcando a reflexão sociopolítica sobre o impacto de diferentes sistemas de organização do conhecimento, o que inclui os sistemas classificatórios, que se encontram na origem da OC (DAHLBERG, 2006).

É atinente à luta feminista a categorização de sexo, que segue um padrão de classificação binário, cuja pertinência hoje se discute. Este padrão tem reforçado, ao longo da história da humanidade, diferentes patamares de naturalização de supremacia dos homens sobre as mulheres. Feministas, como Leolinda, questionaram essa “superioridade”, que negava às mulheres, por exemplo, o direito ao voto ou a ser votada.

Hoje, os movimentos de mulheres reclamam que as remunerações das mulheres são inferiores às dos homens em mesmas funções. Também, a violência física contra mulheres, que refletem o poder dos homens sobre os corpos femininos, é parte da luta contemporânea (RIBEIRO e OLIVEIRA, 2017).

Assim, a luta feminista pode ser resumida na resistência à indevida adoção da categorização de sexos, que produz efeito adicional classificador que estabelece opressor e oprimido.  A História e a perspectiva crítica sobre os impactos sociais dos Sistemas de Organização do Conhecimento (SOC), assim como do uso da linguagem, propiciam compreensão sobre as naturalizações absorvidas socialmente (BOURDIEU, 2008), cujas consequências podem ser gravíssimas (VIGNAUX,1999).

Leolinda luta por direitos e contra o ridículo atribuído às mulheres

Foto: Arquivo Público

Foto: Arquivo Público

Leolinda Figueiredo Daltro, mulher separada, mãe de cinco filhos, nasceu na Bahia, viveu em Cascadura, subúrbio carioca e viajou pelos sertões. Com mais de 70 anos de idade candidatou-se a constituinte. Dizia-se reformadora, pois reivindicava e lutava em favor de justos direitos para as mulheres, de educação laica para os índios e do amplo acesso à educação. Sua atuação como educadora, inclusive em turmas noturnas para crianças e mulheres que tinham necessidade de trabalhar ao longo do dia, se estendeu até sua velhice (KARAWEJCZYK, 2014).

Em sua lápide está registrada declaração amorosa dos familiares para a mesma mulher a quem, por sua luta, se designou como “mulher do diabo”. Num epitáfio do cemitério São João Batista, na cidade do Rio de Janeiro, está escrito:

Leolinda Figueiredo Daltro Mamãe – nosso ourinho 14/07/1859 – 04/05/1935

“Precursora do verdadeiro feminismo pátrio. Propugnadora da nobilitação dos humildes e humanização dos selvícolas.” (KARAWEJCZYK, 2014)

A defesa da educação laica para indígenas demonstrava o desejo de Leolinda para configurar outra desnaturalização: o caráter hegemônico atribuído às religiões cristãs, que impunham crenças afastadas dos valores culturais dos índios brasileiros. A citação a seguir apresenta entre aspas uma declaração de Leolinda.

Essa atuação que envolveu viagens a longínquos sertões para alfabetização de povos indígenas, aos quais não buscava civilizar, mas “dar dignidade por meio da Palavra (dita e escrita). Ensinar o índio a ler e escrever era dar-lhe possibilidade de ser brasileiro.” (JARDILINO, 2016, p. 7)

Melo e Marques (2016) destacaram que essa atuação rendeu perseguições e a alcunha de mulher do diabo. Em razão de suas ideias, Leolinda sofreu, em Uberaba, toda sorte de perseguições por parte da elite local, chegando a ser escorraçada da cidade por uma turba que a chamava de mulher do diabo. (MELO e MARQUES, 2016)

Segundo as duas autoras, percebeu que muitos dos seus insucessos na causa indigenista se deviam à sua condição de mulher, reforçando seu empenho para as lutas feministas.

Na defesa do voto feminino, promoveu grupos de debates entre mulheres. Criou o Partido Republicano Feminista, PRF, a partir de junta feminina que apoiara Hermes da Fonseca, durante o processo eleitoral. Pinheiro Machado, pós-eleições inspirou a criação do partido.  (MELO e MARQUES, 2016)

A causa sufragista de Leolinda sofreu resistências, também, de mulheres. Era consistentemente naturalizada a condição da mulher como ser não político, situação identificada como um “pedestal cercado de respeito público”, conforme fragmento de manifesto contrário à sua luta e de suas companheiras pelo voto feminino.

[…] tenho a certeza absoluta de que, as minhas patrícias repelirão essa inovação perigosa, que vem abalar os alicerces do lar, infiltrando na família o veneno das paixões políticas. Esse novo perigo que nos ameaça devemos a ação dissolvente da professora Leolinda Daltro que, ao lado de algumas amigas e do deputado Maurício de Lacerda, tudo tem feito para nos arrancar do pedestal em que vivemos, cercadas de respeito público. (A Epoca, 14 jun. 1917, p. 1, apud, MELO e MARQUES, 2016 )

A professora Leolinda, no livro que publicou em 1920 (mais de 20 anos após ter se afastado da causa indigenista) registrou atentado contra sua vida, situação em que foram assassinados seus protetores, o coronel Leão Leda e seu filho. Leolinda vivenciou, portanto, uma situação clássica em que a palavra, que discrimina, ofende e oprime, anuncia e respalda intenções ou atentados contra a integridade física ou contra a própria vida. Não minimizava a força das palavras. Afirmou à revista da Federação que “teve ela que lutar contra a pior das armas de que se serviam os adversários da mulher: o ridículo” (MELO e MARQUES, 2016).

Linguagem e opressão: Hipátia, Joana D’Arc e Judith Buttler**

Ribeiro e Oliveira (2017) realizaram estudo sobre filmografias com vistas a identificar a opressão e violência sofridas por mulheres e sua naturalização ao longo da história. Analisaram dois filmes, visando utilizá-los em aulas de história sobre a violência e opressão contra mulheres. No primeiro, a ousadia de Hipátia (filósofa e professora em Alexandria, no Egito entre os anos 355 e 415 d.C) por sua incursão no mundo do conhecimento lhe rendeu o título de bruxa e outros e foi apedrejada e sofreu sufocamento. Tratava-se da negação do ato de estudar e de se propor a quebra de paradigma científicos, além de questionamento sobre poder que exercia. A bruxa e o mal que encerrava foram para a fogueira no segundo filme, sobre a vida de Joana D’Arc que, no século XV, liderou exércitos. “Considerava-se que essas mulheres tinham cometido heresia, que adoravam o diabo e tinham trazido o mal à comunidade […]” (BUTLER, 2017, apud, RIBEIRO e OLIVEIRA, 2017)

E, hoje, o que ocorre? Não nos são negados os direitos primordiais pelos quais brigaram nossas antepassadas. Houve avanços, em que pese o desbalanceamento ainda vigente de oportunidades, por exemplo, para mulheres pesquisadoras frente aos homens. Os movimentos feministas denunciam as disparidades salariais e a violência contra mulheres, que se expande também segundo perspectivas mais amplas de diferentes identidades de gênero e escolhas sexuais.

Questiona-se inclusive a classificação binária, que não contempla diferentes expressões de gênero que buscam visibilidade em sociedade. As agências estatísticas da Austrália, Canadá e Nova Zelândia propuseram, na reunião do grupo de especialistas em classificações estatísticas de 2017 uma terceira categoria para a variável sexo de modo a contemplar diferentes nuances da temática de gênero.

Infelizmente, em que pese as conquistas e que as lutas tenham hoje foco mais complexo, a violência com a palavra, como prenúncio de violência física seguem presentes. Não faz muito tempo, a pesquisadora da temática de gênero, Judith Buttler,  veio ao Brasil para ministrar palestras sobre sua extensa e reconhecida obra como pesquisadora. Foi perseguida em locais públicos, por pequenos grupos de pessoas contrárias ao que entendem ser a “ideologia de gênero”, supostamente defendida por Judith. Xingamentos e cartazes associando-a a bruxas e demônios integravam essas manifestações.

Marielle, Anderson e a linguagem de resistência

Foto: Creative Commons

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A conexão se fez obrigatória, com a recente execução de Marielle Franco, mulher, brasileira, negra, lésbica, favelada. Vereadora eleita pela cidade do Rio de Janeiro, era defensora dos Direitos Humanos e das causas feministas. Atuava com firmeza no combate a política de segurança pública vigente que expõe à violência moradores das favelas do Rio de Janeiro, assim como os contingentes policiais, também vindos de segmentos populacionais mais desfavorecidos sob o ponto de vista socioeconômico. Muitas vidas têm sido dizimadas.

Tinha posicionamento contrário à intervenção militar na gestão da segurança pública do Estado do Rio de Janeiro. Denunciou excessos. Foi executada. Anderson que dirigia o carro que conduzia Marielle foi assassinado, sendo alvejado por tiros dirigidos à vereadora. Sua morte teve repercussão nacional e internacional.

No campo da força simbólica da linguagem, a defesa intransigente dos direitos humanos sofre com o questionamento de sua pertinência. Foi popularizada a noção de que não são defendidos os “humanos direitos”, mensagem com carga simbólica importante, utilizada nas redes sociais para minimizar a gravidade dos crimes contra Marielle e Anderson.

Ela se mostrou competente com símbolos, sendo interessante observar que quebrou a conotação opressora dos termos favelada e favelado, costumeiramente aplicados no campo do “ridículo”, no mesmo sentido usado por Leolinda em relação à opressão sobre as mulheres. Marielle e suas equipes os resgataram. Transformou-se o lugar de moradia das comunidades faveladas em resistência e solução integradas à cidade, a partir da formulação e repetição da seguinte afirmativa:

– “A favela não é problema. A favela é a cidade. A favela é solução.”

 Esse percurso, motivado pelo reconhecimento ao pioneirismo de Leolinda, reflete linha do tempo de opressões às causas emancipatórias mais longa do que seria desejável, ratificando importante área de estudo que se configura em atuação multidisciplinar, envolvendo os campos da História, da linguagem e da dimensão sociopolítica da Organização do Conhecimento.

*O conteúdo deste artigo é de inteira responsabilidade da autora.
** Fotos: Creative Commons

 

Referências

BOURDIEU, P. (2008), Razões práticas: sobre a teoria da ação. Papirus Editora, 2008.

DAHLBERG, Ingetraut. Knowledge Organization: a new Science? Knowl. Org. 33, n.1, 2006 pp. 11-19.

JARDILINO, J. (2016), Carta ao leitor,  Rev. hist.edu.latinoam – Vol. 18 No. 26, enero – junio 2016 – ISSN: 0122-7238 – p. 7

KARAWEJCZYK, M. (2014), Os primórdios do movimento sufragista no Brasil, Estudos Ibero-Americanos, PUCRS, v. 40, n. 1, p. 64-84, jan.-jun. 2014.

MELO, H. e MARQUES, T. (2016), DALTRO, Leolinda de Figueiredo, http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/DALTRO,%20Leolinda%20de%20Figueiredo.pdf.

RIBEIRO, R. e OLIVEIRA, S. (2017), Historicizando a violência contra as mulheres: uma proposta de abordagem feminista de filmes históricos no ensino da história, http://bdm.unb.br/bitstream/10483/17599/1/2017_RebeccaMariaQueirogaRibeiro.pdf.

VIGNAUX, G. (1999), O demónio da classificação: pensar, organizar. Instituto Piaget, 1999, Éditions du Sueil, 1999.

 

 

 

 

Informação em pauta

 

O outono chegou e com ele vieram duas novidades: o I Congresso Internacional de Humanidades Digitais (HDRio 2018), realizado na Fundação Getúlio Vargas, entre 9 e 13 de abril, no Rio de Janeiro, e o V Seminário de Estudos da Informação, dias 14 e 15 de junho, na Universidade Federal Fluminense, em Niterói.

O HDRio 2018, que tem como um dos parceiros o Laboratório em Rede de Humanidades Digitais (LaRHud), coordenado pelo professor Ricardo Pimenta, reunirá pesquisadores das mais diversas áreas do conhecimento para discutir o impacto das tecnologias da informação e comunicação, criação de metodologias e ferramentas presentes na vida cotidiana das sociedades locais e globais. O período de submissão de trabalho já se encerrou, mas quem quiser comparecer como ouvinte, a oportunidade segue até dia 08 de abril e custa R$ 140. Fique atent@: a inscrição durante a abertura do evento será permitida, porém com um acréscimo de 30% do valor original.

Já o V Seminário de Estudos da Informação terá como tema central “Produção, Tratamento, Disseminação e Uso de Recursos Informacionais Heterogêneos: diálogos interdisciplinares”. Na edição deste ano, a organização inovou com a participação de estudantes de pós-graduação. Mestrandos (que tenham realizado a qualificação) e doutorandos em Ciência da Informação podem enviar relatos de pesquisa em andamento que se relacionem com a temática principal  até o dia 20 de abril. Todas as normas e valores de inscrição estão descritos neste link.

Em tempo:  Giselle Beiguelman, pesquisadora e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, é a nova colunista da Rádio USP. A primeira transmissão do Ouvir Imagens aconteceu dia 5 de março e discutiu a obra da artista norte-americana Heather Dewey-Hagborg. Para nós, que estudamos principalmente a relação entre informação e memória, a edição do dia 12 de março foi mais do que especial! Beiguelman abordou sobre a obsolescência das plataformas tecnológicas e o risco para a preservação digital. Na ocasião, foi debatido sobre os programas usados na década de 1990 e que saíram de linha, impedindo a recuperação de projetos de produção artísticas como o net.art.  Quem quiser saber mais e acompanhar a coluna, Giselle Beiguelman está no ar sempre às segundas-feiras, a partir das 8h.

 

Da corola da grande flor a mulher emerge, os braços erguidos: mulheres, arte e saúde mental

Michelle Louise GuimarãesMuseóloga; doutoranda em Ciência da Informação IBICIT-UFRJ 

Pedro AmorimMestrando em direito FND-UFRJ; especialista em Fotografia e Imagem IUPERJ-UCAM 

A história da memória das mulheres é permeada por constantes intervenções externas a suas protagonistas. Mulheres vinculadas a um sofrimento psíquico, em especial, estavam mais sujeitas a estas formas de violência que buscavam anular ou manipular tais vivências na busca pelo controle social deste grupo. Se a relação da psiquiatria moderna com os pacientes, principalmente as mulheres, é de silenciamento, a produção artística contorna as opressões positivadas em prol de uma maior liberdade de expressão das subjetividades e memórias de seus produtores. A psiquiatra alagoana Nise da Silveira conseguiu, a partir de seus trabalhos com pacientes do Centro Psiquiátrico Pedro II (atual Instituto Municipal Nise da Silveira), no Rio de Janeiro, encontrar um modo de juntar esses dois caminhos: um tratamento humanizado em saúde mental e as atividades expressivas, como eram denominadas por Nise, as pinturas, esculturas e outros trabalhos manuais realizados na Sessão Terapêutica Ocupacional da instituição.   

Foi através da pintura que Adelina Gomes conseguiu, por exemplo, externalizar suas expectativas nas obras e despotencializar seus traumas. Sua produção carrega elementos femininos reprimidos violentamente pela família e pelo saber psiquiátrico tradicional. A experiência de Nise materializada nas obras de Adelina são uma prova da força que as expressões imagéticas têm quando originarias da própria mulher, fissurando o contexto hegemônico para produzir e transformar sua realidade. 

Ao analisar as práticas da memória femininaMichelle Perrot (1989) destaca o silêncio dos arquivos em referência à história das mulheres, em particular, entre o século XIX e meados do século XX. Segundo essa historiadora, a divisão entre espaço público e privado espelha e constitui as relações de gênero. Neste mesmo cenário, os procedimentos de registro de informações valorizam o domínio público em detrimento do privado. As mulheres da alta burguesia, quando inseridas neste espaço comum, desfilavam com ornamentos, vestimentas e gestos modelados na função de demonstrar o poder de seus respectivos maridos. Assim, nota-se que a observação sobre o feminino “se detém pouco sobre as mulheres singulares, desprovidas de existência, e mais sobre “a mulher”, entidade coletiva e abstrata à qual se atribuem as características habituais” (PERROT, 1989, p. 10). A autora salienta ainda que, no caso das mulheres pobres, suas vozes eram raramente ouvidas ou consideradas, tornando-se relevantes apenas quando “seus murmúrios inquietam no caso do pão caro, quando provocam algazarras contra os comerciantes ou contra os proprietários, quando ameaçam subverter com sua violência um cortejo de grevistas” (PERROT, 1989, p. 10). 

Enfatizando a divisão do espaço público e privado ainda no século XIX, Vânia Carneiro de Carvalho (2008) distingue os repertórios masculinos e femininos em ações centrípetas e ações centrífugas. A ação centrípeta relacionada à conexão entre o homem e os artefatos ocorre de forma hierárquica, “no qual os atributos dos objetos nunca sobrepujam o homem, ao contrário, eles servem para desenhar a personalidade de gênero de maneira individualizada.” (CARVALHO, 2008, p. 43). Em sentido oposto, na esfera doméstica, o feminino mescla-se com cada objeto presente naquele espaço, de modo inespecífico e difuso: “Trata-se de uma direção centrífuga da ação feminina. Essa ação irradiadora, que cobre cada objeto da casa com um véu de feminilidade, atinge a engrenagem doméstica, inclusive seus empregados, seus ritos, sociais, familiares e o seu próprio corpo” (CARVALHO, 2008, p. 68).  

Esse vínculo entre os objetos domésticos e as mulheres também é ressaltado por Perrot (1989). Segundo a autora, algumas mulheres foram responsáveis pela preservação dos arquivos privados que narram a história das famílias: correspondências, fotografias, dentre outros, eram reunidas por essas mulheres. Porém, os textos escritos em seus diários, por exemplo, eram destruídos por elas mesmas. Perrot compreende que a destruição destas memórias afetivas por suas respectivas produtoras, demonstra o temor em ter suas intimidades expostas aos olhos da sociedade, pois os conteúdos internos femininos eram vistos como possíveis desestabilizadores da ordem social.   

Esse ato de autodestruição é uma forma de adesão ao silêncio que a sociedade impõe às mulheres, feita, como escreve Jules Simon, “para ocultar suas vidas”; um consentimento da negação de si que está no âmago das educações femininas, sejam elas religiosas ou laicas, e que a escrita – assim como a leitura contradiziam. Queimar seus papéis é uma purificação pelo fogo dessa atenção consigo própria no limiar do sacrilégio. Esse gigantesco auto de fé foi o destino que se deu à maioria dos escritos privados de mulheres, ao mesmo tempo que aos arquivos familiares preservados pela longevidade dessas mulheres. A morte súbita, os armários esquecidos pelas grandes casas provinciais são os únicos empecilhos desse incêndio. A imagem das mulheres ateando fogo aos seus cadernos íntimos ou a suas cartas de amor no final de suas vidas sugere a dificuldade feminina de existir de outro modo que no instante fugaz da palavra e, por consequência, a dificuldade de recuperar uma memória que não deixou rastros (PERROT, 1989, p. 12-13) 

Com o amanhecer da psiquiatria moderna, também no século XIX, outro papel feminino começa a ser construído: fortalece-se o conceito de histeria. O saber psiquiátrico divisa formas de controle social, trazendo uma nova abordagem às subjetividades das mulheres, anteriormente controladas no âmbito privado. Se a queima dos documentos representa uma implosão das vontades femininas que cedem à pressão patriarcal, a explosão da subjetividade dessas mulheres começa a ser observada e catalogada por Charcot na clínica Salpêtrière. Através da fotografia, o famoso médico tenta consolidar o saber psiquiátrico moderno ao manipular essa perfomatividade das supostas mulheres histéricas. A análise charcotiana é, assim, envolta em um status de objetividade que a legitima (DIDI-HUBERMAN, 2015). Esse cenário inaugura a resiliente imagética acerca da mulher histérica, consolidando um imaginário social a imprimir, século a século, a noção de irracionalidade ainda atrelada ao feminino. 

Nota-se, portanto, um percurso de produção/destruição das memórias das mulheres no século XIX: entre o sufocamento de suas vivências, em cartas de amor queimadas e diários rasgados, ao controle de seus corpos em fotos realizadas por homens e para homens que estudavam (e produziam) o fenômeno da histeria (DIDI-HUBERMAN, 2015). Contudo, mesmo o método científico de Charcot e de seus seguidores não conseguia alcançar, através da produção imagética sobre as mulheres – suas pacientes –, o sentido de suas experiências singulares. Como Margaret Atwood (2008) conta em Vulgo Grace ao narrar a história verídica de Grace Marks, uma mulher suspeita de participar do assassinato de duas pessoas no Canadá do século XIX, a produção tão restrita e reducionista de saberes acerca do universo feminino a partir da ótica masculina (mulheres ora ingênuas e inferiores mentalmente, ora perigosas associadas ao demoníaco e incontrolável das paixões humanas), impede o entendimento real das intenções e experiências de sua personagem.  

Ainda sobre Charcot e seus registros, é de se esperar, inclusive, que aquelas fotos do álbum original não tenham logrado representar figuras absolutamente passivas em seus supostos sofrimentos mentais. Ao contrário, se Charcot as fotografou, fotografou-as também em sua perfomatividade, sugerindo aqui a velha questão que acompanha antropologia visual: se somos nós, produtores de imagem, que dizemos o outro ou se é o outro que diz a nós (GILI, 2005). 

A produção imagética exógena à mulher sempre competiu com as próprias criações de artistas mulheres, como Artemisia Gentileschi e Frida Kahlo. As obras de Kahlo e Gentileschi destacam seus traumas, conflitos internos e desejos. Podemos compreender a arte tanto como expressão da realidade de tais mulheres, quanto potência de transformação deste real. No caso brasileiro, a história de Adelina Gomes, paciente internada no Centro Psiquiátrico Pedro II, em 17 de março de 1937, representa essa força transformadora dos conteúdos internos tão reprimidos pela sociedade patriarcal. 

Nise da Silveira (2015) dedica um capítulo de seu livro Imagens do Inconsciente à história de Adelina. Filha de camponeses, nasceu em condições precárias de vida, porém conseguiu fazer o curso primário e um curso profissional, onde aprendeu trabalhos manuais. Mulher negra, era conhecida por sua timidez e introversão, sendo bastante obediente aos pais, em especial à mãe que tinha um forte controle sobre sua vida. Aos dezoito anos, apaixona-se por um homem. Sua mãe não aceita esse possível relacionamento e Adelina o rejeita, reprimindo sua paixão. Inicialmente, a vida aparenta seguir tranquila, até que Adelina começa a agir de modo agressivo e sombrio, estrangulando, por fim, uma gata estimada por ela e sua família, momento em que é internada. 

Segundo a psiquiatra alagoana, em seus primeiros anos internada no hospital do Engenho de Dentro, Adelina é avessa a qualquer forma de contato. Os médicos a diagnosticam com esquizofrenia. Em 1947, Adelina começa a frequentar o ateliê de pintura da Seção Terapêutica Ocupacional. Nise atenta que a paciente não teve dificuldades em iniciar-se na pintura.  

A primeira temática de Adelina foi a representação de gatos: inicialmente uma gata de tetas volumosas e uma gata bailarina, figura com aspecto humano que parece dançar. Nise entende que essa é a dupla expressão de vida instintiva feminina, de modo que “a primeira é uma gata mãe e a segunda é um animal livre de exprimir em movimentos de dança os instintos de sua natureza” (SILVEIRA, 2015, p. 223).  

De certa forma, Adelina não consegue se desvincular da mãe, daí a repetição do tema das gatas, que para Nise é o símbolo arquetípico do feminino. Então, neste momento, introverte-se: fugindo para o reino maternal, começa a produzir imagens de grandes e terríveis mães, com chifres e capuzes. A partir da atividade de construção dessas imagens matriarcais, Adelina começa a despontencializá-las paulatinamente, produzindo estátuas de deusas-mães “que parecem querer abrir o peito com as mãos” (SILVEIRA, 2015, p. 227).  A paciente utiliza o contato manual que a modelação oferece para tornar intimo o encontro com a figura materna, fabricando assim o objeto físico a ponto de ressignificar a imagem-mãe, enfraquecendo seu controle ao mesmo tempo que amorosamente se aproxima da figura de coração aberto.  

Nise da Silveira_Adelina

Figura 1: Adelina Gomes. 04/11/1959. Óleo sobre papel.

Com as esculturas nota-se a formação da característica principal do trabalho de Adelina:  as metamorfoses. Desde mulheres com cabeças de cachorros a se transformarem em cães com cabeças de mulheres à fusão das figuras felina e feminina no mesmo corpo. Nise, no entanto, observa que é com as transfigurações em flor que um paralelo entre a história da paciente e o mito grego de Dafne é traçado. Dafne, fugindo de Apolo, deus grego apaixonado por ela, pede ajuda a sua mãe, Gaia, que a metamorfoseia em um loureiro. “O mito de Dafne exemplifica a condição da filha que se identifica tão estreitamente com a mãe ao ponto dos próprios instintos não lograrem a desenvolver-se” (SILVEIRA, 2015, 220)

Adelina_Nise da Silveira_Informação

Figura 2: Adelina Gomes. 18/01/1960. Óleo sobre papel.

Ao longo da produção das obras, Adelina consegue externalizar sua libido, antes controlada pela figura das mães: a partir de dado momento se desvincula das imagens de flores e compõe em seus quadros figuras masculinas. De acordo com Nise (2015), Adelina tem um interesse amoroso por um paciente da instituição psiquiátrica. Neste período, pinta inúmeros quadros que tratam de sua dificuldade de comunicação com o outro. Exemplos nítidos são as cadeiras vazias ao lado da figura masculina de interesse. Em algumas pinturas, Adelina se transfigura novamente em flor, retomando o tema de Dafne. Em meio a essas oscilações, Adelina pinta, em 9 de junho de 1975, uma noiva juntamente ao seu noivo, semelhante às fotografias de álbum de família. A artista faleceria quase uma década depois, em 1984. 

As intenções de Nise não se alinhavam àquelas da psiquiatria tradicional. Sua busca não era por apagar a memória dos pacientes através de métodos violentos, mas trazer suas lembranças à tona, enfraquecendo sua influência negativa sobre a pessoa. A transformação das experiências de vida através da terapêutica ocupacional dialoga imensamente com as formas de produção e expressão mnemônica por artistas mulheres. Se antes, no entanto, a arte se opunha à psiquiatria em sua cientificidade moderna, agora encontra, no exemplo de Adelina Gomes, uma forma de legitimar-se como terapia.  

Através das pinturas e esculturas, Adelina revela seus traumas intimamente ligados à opressão vivida em sua juventude. Da mesma forma, mulheres como Frida Kahlo utilizaram-se da arte como forma de fissurar o silenciamento a que estavam sujeitas em busca da materialização de sua subjetividade, conferindo às suas memórias a voz que lhes era tirada à força. 

 

 

Referências:  

ATWOOD, Margareth. Vulgo Grace. São Paulo: Rocco, 2008. 

CARVALHO, Vânia Carneiro de. Gênero e artefato: o sistema doméstico na perspectiva da cultura material. São Paulo, 1870-1920. São Paulo: Edusp, 2008. 

DIDI-HUBERMAN, Georges. A invenção da histeria: Charcot e a iconografia fotográfica da Salpêtrière. Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: MAR/Contraponto, 2015. 

GILI, Marta. Graciela IturbideMadrid: tf.editores, 2005. 

PERROT, Michelle. Práticas da Memória Feminina. In: Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 8, n. 18, ago/set.1989, p.15 

SILVEIRA, Nise da. Imagens do Inconsciente. Rio de Janeiro: Vozes, 2015. 

Onde estão todas as mulheres? Ciências, Wikipédia e as desigualdades do dia a dia

Juliana Monteiro

Museóloga, professora, mestre em Ciência da Informação. Coordenadora de projetos GLAM do grupo Wiki Educação Brasil

 

Como acredito que todo ato de escrita e fala é permeado por nossos credos e ideias, vale a pena esclarecer qual é o meu lugar de fala. Sou museóloga, atuando há mais de 10 anos na área de museus e coleções culturais e, desde 2016, atuante no movimento Wikimedia. Colaboro particularmente com projetos que integrem instituições culturais, como museus, e os projetos Wikimedia, como a Wikipédia. Nesse âmbito também procuro advogar, de diferentes formas, por ações de visibilidade das mulheres no universo web, seja no âmbito da cultura ou não. E é justamente a partir dessa experiência – que ainda está em desenvolvimento para mim mesma – que procurei desenvolver o texto a seguir.

O dia internacional das mulheres, celebrado no dia 8 de março, não é, nem de longe, uma data para ser celebrada apenas com flores e chocolates. A data, que nasceu da luta das mulheres por seus direitos, particularmente por melhores condições de trabalho, antes celebra a importância das agendas feministas contemporâneas. E, claro, a continuidade da luta por condições igualitárias em todos os espectros da vida além do trabalho.

Uma das pautas é justamente pelo maior equilíbrio nas oportunidades de crescimento dentro do universo acadêmico. Inúmeros estudos apontam que mulheres estão presentes nas salas de graduação em praticamente todas as áreas de conhecimento. Elas recebem, de forma praticamente igual aos indivíduos que se identificam como homens, a mesma quantidade de bolsas de iniciação científica, por exemplo. Porém, a curva passa a ser descendente para a participação das mulheres na medida em que a hierarquia acadêmica sobe (LETA, 2003; LIMA et alli, 2016).

Muitas são as explicações para essa situação. Entre elas, é válido ressaltar o peso do estereótipo de gênero.  Segundo uma pesquisa recente, publicada na revista Science, meninas a partir dos 6 anos, por exemplo, já percebem atividades tidas como para pessoas “muito, muito espertas” ou “inteligentes” como coisas para meninos (BIAN et alli, 2017).  O estereótipo de gênero também é o fator que faz com que socialmente seja mais aceito que meninas, por exemplo, não entendam Matemática ou Física – não tendo, assim, estímulo o suficiente para superar as eventuais dificuldades que possam surgir na interação com conteúdos dessas disciplinas na escola.

É possível compreender que as percepções – socialmente construídas – que temos sobre o que é ser mulher ou homem podem ser, assim, um catalisador poderoso para o afastamento das mulheres de tudo aquilo que se relacione aos cálculos e à tecnologia. Tais percepções podem, também, influenciar as escolhas profissionais das mulheres. Do mesmo modo, podem contribuir para a perpetuação de entendimentos equivocados sobre papéis, funções e capacidades femininas e masculinas.

Obviamente há garotas que, independente de tal cenário, seguem carreiras entendidas como sendo majoritariamente “masculinas”, como as ciências “duras”. Porém, o que se passa nesses espaços é que muitas vezes as pesquisadoras enfrentam todo tipo de obstáculos. Logo cedo na carreira acadêmica, muitas se deparam com intervalos em suas pesquisas devido a licenças-maternidade, o que pode levá-las a serem questionadas pelos pares sobre sua capacidade de produção de artigos. Podem, ainda, sofrer mais pressão social para definir seu papel enquanto cientista ou como mulher, como se as duas coisas fossem essencialmente antagônicas. Se a isso forem somadas outras chaves, como raça e classe social, a situação se torna mais difícil ainda. Ou seja, mulheres negras, quando também oriundas de classe social mais baixa, tendem a ter menos acesso a essas áreas e padecer mais ainda quando conseguem nelas adentrar (LIMA, 2003).

O mesmo movimento se percebe nas ciências humanas, letras e artes – onde as mulheres, ao contrário da área de exatas e tecnologia, tendem a ser a maioria. No caso específico desse outro conjunto de áreas de conhecimento, o que vemos não é nem tanto a sub-representação das mulheres desde as salas de graduação, mas a sua ausência nos postos mais altos da gestão universitária. Repete-se, portanto, o cenário do que ocorre também nas ciências exatas e tecnologia (LIMA, 2003).

Por minha experiência, na área de Museologia e museus, que é de onde provenho, é possível sentir claramente a reprodução dessa lógica. Durante a graduação, minha turma era predominantemente formada por pessoas que se identificavam como mulheres. O mesmo era válido para turmas veteranas e turmas que vieram depois. A maioria dos docentes de Museologia era, então, composto por mulheres. Porém, desde o início de minha trajetória profissional há mais de 10 anos não foi difícil ver que os homens ocupavam – e ocupam ainda – a maioria dos cargos de direção de museus. Ocupam, também, cargos de chefia de setor de curadoria e de secretários de cultura. Já os cargos técnicos, em sua maioria mal remunerados e pouco reconhecidos, são ocupados em grande parte por mulheres.

Embora não se tenha dados precisos sobre tal assunto na área de museus no Brasil, pesquisas relativamente recentes feitas nos Estados Unidos (GAN et alli, 2015) só reforçam a persistência da divisão de papéis entre homens e mulheres de acordo com o grau de complexidade atribuído à função. Ou seja, aos homens cabem as funções decisórias e às mulheres cabem as funções operacionais, tendo ainda pouca voz ou representatividade nas altas instâncias executivas. Consequentemente, os maiores salários são dos homens e os menores, geralmente das mulheres.

Cumpre lembrar que o que se vê dentro da academia não é, claramente, privilégio de tal ambiente. Ele só reflete as estruturas discriminatórias e excludentes que estão impregnadas na sociedade como um todo. Um exemplo bastante óbvio disso e que pode ser colocado aqui como uma ponte para o assunto das mulheres nas ciências é o da Wikipédia.

A Wikipédia é, hoje, a maior enciclopédia online do mundo e uma das mais importantes fontes de referências já existentes, tem por premissa a difusão aberta do conhecimento humano em mais de 200 línguas. Logo, seria natural esperar que tal conhecimento fosse aquele produzido por mulheres e homens, sendo devidamente representado entre os artigos da enciclopédia. Porém, um estudo de 2011 da Fundação Wikimedia – responsável por sustentar as diferentes Wikipédias e outros projetos Wiki – apontou que apenas 8,5% das pessoas que editavam a enciclopédia se identificavam como mulheres (WIKIMEDIA, 2011).

Os conteúdos refletem também tal desequilíbrio. A Wikipédia em português, por exemplo, contém 992.908 artigos e 6.027 editores ativos (dados de 27 de fevereiro de 2018). Desses artigos, 267.658 são biografias – e apenas 36.213 são de mulheres, o que corresponde a um total de 17,44%.

Outro dado que também demonstra claramente o quanto o caminho ainda pode ser longo para se atingir um equilíbrio na representação feminina na Wikipédia é a quantidade de visualizações de tais biografias. O artigo do matemático e criptoanalista Alan Turing possui 804 visualizações diárias na Wikipédia em português. Contudo, é possível verificar que o artigo dedicado à Joan Clarke, matemática, criptoanalista e figura central no desenvolvimento do projeto Enigma assim como Turing, possui na mesma Wikipédia uma média de 43 visualizações diárias. E é digno de nota que a biografia em português de Turing não cita diretamente Clarke, sendo possível encontrar as relações entre os dois apenas a partir do seu artigo em outras línguas, como o inglês.

Cumpre afirmar, por fim, que neste dia 8 de março nem tudo o que se tem para dizer tem a ver com obstáculos para a adequada inserção das mulheres nas diferentes esferas da vida acadêmica e social. Felizmente, tem-se visto no Brasil vários movimentos nascidos no seio das universidades que buscam questionar tal cenário. As discentes e docentes de cursos como Física, Química, Matemática e de Engenharias têm se organizado cada vez mais para aumentar a participação feminina nas diferentes instâncias das estruturas acadêmicas. Ou seja, as mulheres, hoje, têm procurado lutar por maior espaço e voz em Conselhos, Grêmios, Diretórios, Comissões, Departamentos e Reitorias.

Além disso, não é preciso procurar muito para encontrar seminários, congressos e conferências – novamente, muitas vezes organizadas pelas próprias mulheres – que se dedicam a reunir pessoas interessadas em discutir questões de gênero nas ciências. A proposta, muitas vezes, é discutir de forma ampla a proposição de alternativas que comportem novas oportunidades de crescimento para as mulheres dentro da academia (e também fora dela). E, nos dias de hoje, cada vez mais há histórias inspiradoras de mulheres que conseguem ultrapassar barreiras e se consolidar em sua área de atuação.

Resta o desejo, portanto, de que o dia 8 de março relembre que ainda é necessário alterar a lógica machista que habita ainda tantos espaços, como a academia ou a Wikipédia. E que o dia relembre também que tal lógica pode ser desconstruída em prol de um mundo mais justo, onde as mulheres não sejam diminuídas, silenciadas ou esquecidas por serem mulheres. Que nossas vozes possam ser cada vez mais ouvidas e capazes de provocar a mudança estrutural que tanto é urgente quanto imprescindível.

 

 

Referências:

BIAN, Lin; LESLIE, Sarah-Jane; CIMPIAN, Andrei. Gender sterotypes about intellectual ability emerge early and influence children´s interests. Revista Science, EUA, v. 355, n. 6323, p.389-391, 27/01/2017. Disponível em: http://science.sciencemag.org/content/355/6323/389. Acesso em: 25/02/2018.

GAN, Anne Marie; VOSS, Zannie Giroud; PHILLIPS, Lisa; ANAGNOS, Christine; WADE, Alison D. The gender gap in Art Museums Directorship. EUA: Association of Art Museums Directors, 2015. Disponível em: https://aamd.org/sites/default/files/document/The%20Gender%20Gap%20in%20Art%20Museum%20Directorships_0.pdf. Acesso em 24/02/2018.

LETA, Jacqueline. As mulheres na ciência brasileira: crescimento, contrastes e um perfil de sucesso. Revista Estudos avançados, São Paulo, v. 17, n. 49, p. 271-284, Dec. 2003.   Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142003000300016&lng=en&nrm=iso. Acesso em 24/02/2018.

LIMA, Betinna Stefanello; BRAGA, Maria Lúcia de Santana; TAVARES, Isabel. Participação das mulheres nas ciências e tecnologias: entre espaços ocupados e lacunas. Revista Gênero, Niterói, v.16, n.1, p.11-31, 2.sem.2015. Disponível em: http://www.revistagenero.uff.br/index.php/revistagenero/article/view/743/410. Acesso em 24/02/2018.

WIKIMEDIA Foundation. Wikipedia Editors Study: results from the editor survey, april 2011. Disponível em:  https://meta.wikimedia.org/wiki/File:Editor_Survey_Report_-_April_2011.pdf. Acesso em: 24/02/2018.

Escrevivências na C.I.

Um feliz 2018 a todos.

Retomando as atividades do blog do grupo de pesquisa IMeS/IBICT, iniciamos o ano de 2018 com uma breve explicação sobre uma de nossas seções: Escrevivências.

Jacqueline Ribeiro Cabral (UFF)

O termo ESCREVIVÊNCIA foi tomado de empréstimo de Maria da Conceição Evaristo de Brito, mais conhecida como Conceição Evaristo, escritora e pesquisadora brasileira nascida em 1946 na cidade de Belo Horizonte. Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense, Conceição Evaristo vem de uma família muito pobre, e teve que conciliar os estudos trabalhando como empregada doméstica até concluir o antigo curso normal, em 1971. Militante do movimento negro e com intensa participação em movimentos sociais, a autora cunhou o conceito de ESCREVIVÊNCIA em 1995, a partir das palavras “escrever” e “viver”. Na conclusão de seu texto para um seminário sobre mulheres e literatura, a Conceição Evaristo afirma que a escrevivência das mulheres negras “não é para ninar os filhos da Casa Grande, e sim para incomodá-los em seus sonos injustos”. ESCREVIVÊNCIA tem a ver, portanto, com autobiografia, com a ideia de “escrita de si”, com o fato de que a subjetividade de qualquer escritor ou escritora contamina a sua escrita. No caso em questão, a escrevivência de Conceição Evaristo está impregnada pela sua condição de mulher negra na sociedade brasileira.

 

Novo Laboratório de Humanidades Digitais no IBICT –

No dia 30 de outubro de 2017 foi realizado o I Workshop do Laboratório em Rede de Humanidades Digitais do IBICT O evento marcou a fundação do LarHuD – Laboratório em Rede de Humanidades Digitais do IBICT em parceria com a UFRJ.

Estiveram presentes: Ricardo Pimenta (IBICT), Marcia Cavalcanti (USU), Liz-Rejane Issberner (IBICT), Marcos Cavalcanti (COPPE-UFRJ), Sarita Albagli (IBICT), Fabio Gouveia (FIOCRUZ), Renan Marinho (CPDOC/FGV), Josir Cardoso (IBICT), Marco Schneider (IBICT), Arthur Bezerra (IBICT), Paulo Castro (ECO-UFRJ), Marcelo Fornazin (UFF; PPGCI/IBICT-UFRJ), Fernanda do Valle (IBICT), Roberto Bartholo (COPPE-UFRJ), Monica Machado (ECO-UFRJ), Ilana Strozenberg (ECO-UFRJ), Ivana Bentes (ECO-UFRJ), Marcella Albaine (UNIRIO), Marcos Novais (IBICT-Brasília).

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O Workshop teve como objetivo apresentar o laboratório como um lugar cujas muitas portas estão abertas à ação colaborativa e como um ponto de convergência/colimação de interesses conjuntos. Um canal de diálogo entre campos disciplinares diversos: Ciências Sociais, História, Antropologia, Letras, Comunicação, Arquivologia, Biblioteconomia, Computação, Engenharia de Produção, Ciência da Informação entre outras. A proposta é pela transdisciplinaridade contínua.

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Com uma agenda propositiva inicial de cursos e oficinas, pensamento crítico, ações em ambiente wiki, produção do conhecimento em perspectiva tecno-cientifica e pública, visando a ciência aberta enquanto política de C&T, análise de redes sociais, desenvolvimento de ferramentas e de glossários, há muito o que fazer nos próximos meses.

 

Entre os primeiros objetivos elencam-se:

  1. desenvolver projetos que se insiram no contexto tecnopolítico brasileiro, uma vez que o tema Humanidades Digitais já floresce no exterior. A área é recente, considerada transdisciplinar e, por isso, apresenta múltiplas questões de pesquisa.
  2. ser em rede, aberto, colaborativo, independente de departamentos.
  3. construir maior integração com a sede do IBICT, em Brasília, responsável pela parte administrativa e tecnológica do instituto e ligada diretamente ao Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.
  4. produção de um glossário bilíngue da área de Humanidades Digitais, em plataforma wiki, incluindo relatos de usos de ferramentas disponíveis. A finalidade desses relatos é ampliar o entendimento sobre termos técnicos e aplicações.

Mas estes são apenas os primeiros. Para saber mais visitem: http://www.larhud.ibict.br

 

IMeS/IBICT chega à UFF

No último dia 01 o prof. Ricardo Pimenta, coordenador do grupo de pesquisa IMeS/IBICT proferiu a palestra “humanidades digitais e memória: inovação ou mais do mesmo?”durante o encontro do CGI/IACS/UFF “trocando experiências”.23004857_10212388975014399_8317076126097079397_o

A atividade, de iniciativa da prof. Jacqueline Ribeiro, participante do IMeS, contou com a presença de muitos alunos de graduação em torno do debate sobre o que seriam as humanidades digitais.

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